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  • Livro “Memórias de um Bodybuilder improvável” – Parte 1

    muscle

     

    Poucos dias atrás eu pude finalmente assistir o filme “Pain and Gain” com Mark Wahlberg e Dwayne Johnson. O filme fala de três bodybuilders atrapalhados que planejam um sequestro e se dão muito mal no final.

    Mas o ponto principal naquele filme, para mim e muitos outros, foi  poder ver a cultura do Fisiculturismo sendo retratada no cinema. A luta pelo “Pump”, a irmandade e companheirismo, os shakes Hipercalóricos.  

    Tudo isso faz parte da cultura de nosso esporte, mas todo esse aspecto cultural, underground, vem sendo perdido à medida que o esporte se massifica – ou melhor, à medida que dirigentes e empresas de suplementos tentam transformar tal cultura em algo aceitável pela massa, algo menos radical, menos freakshow.

    E isso é tudo o que não queremos. Os verdadeiros amantes do bodybuidling, que têm o esporte e todas as suas características enraizados em nas suas mentes e corpos, realmente querem ficar nas sombras, no underground. Treinando em suas academias onde o som pode ser alto e os halteres devem ser jogados no chão.

    Isso está se perdendo um pouco, mas creio que seja uma fase e que tudo deve voltar ao normal quando o pessoal que está aqui apenas por moda se canse e procure o próximo passatempo.

    Mas para ajudar a agilizar esse processo, pessoas formadoras de opinião e que vivem o esporte há anos podem mostrar um bom material relativo ao bodybuilding e trazê-lo de volta às suas raízes.

    Enquanto eu me revirava na cama esta noite, lembrei de um livro que eu havia lido muito tempo atrás, provavelmente em 2006. O livro se chama  “Muscle: Confessions of an unlikely Bodybuilder” (“Músculo: Confissões de um fisiculturista improvável”, em tradução livre)  de Samuel Fussel, publicado originalmente em 1992.

    Sam Fussel era filho de professores de Universitários de Literatura Inglesa. Ele próprio é professor universitário de Literatura. Esse livro é uma espécie de autobiografia de Sam Fussel, onde ele conta com detalhes os 4 anos em que ele viveu, comeu, respirou e dormiu como um bodybuilder.

    É um livro fantástico, ambientado nos anos 80, com muitas histórias interessantes sobre esse universo em uma das décadas mais ricas e mágicas culturalmente. Ao longo das próximas semanas, vou reler o livro e contar a história, sob o meu ponto de vista, para vocês.

     

    Capítulo I – Genesis

     

    Sam começa a livro falando sobre os bodybuilders, descrevendo-os como “os doentes” (The diceased) e como a maioria deles pegava essa doença durante a adolescência. Não era o caso de Sam, que até os 26 anos passara a vida entre livros, estudando, estudando, estudando.

    Após se formar em Oxford, Sam mudou-se para Nova Iorque, alugou uma kitnet e arrumou um emprego no ramo de publicações.

    Foram meses difíceis para ele, com 1,90 m de altura e 70kgs, ele parecia frágil. Na verdade, ele era frágil, viva doente, pneumonia, febres, tonturas. Apesar de todos os medicamentos, ele nunca melhorava e tinha um aspecto cadavérico.

    Na verdade, o que causava isso tudo nele era Nova Iorque, ou melhor, morar em Nova Iorque. Ele convivia com as notícias de assaltos, estupros, espancamentos. Ele se sentia vivendo constantemente em um estado de sítio.

    Para quem não se lembra, houve uma tremenda onda de violência em NY no fim dos anos 70 até o início dos anos 90 causada principalmente pelo aumento do tráfico de drogas.

    Mas não era apenas isso que perturbava Sam, ele se sentia preso pela multidão, pelos arranha-céus e sufocado pela poluição. Ele passava os dias de olhos bem abertos e as noites todo trancafiado em seu pequeno apartamento.

    Ele tentou arrumar uma namorada, passava trades agradáveis com ela, mas a despedida era sempre doída, na hora em que ela tinha que correr de volta para casa e seu marido.

    Com tanta coisa ruim sob a sua visão, Sam chegou a considerar o suicídio. Em uma tarde, após testemunhar um espancamento na estação de metrô, Sam avista um cara com uma barra de ferro vindo em sua direção. Ele entra em uma livraria para se esconder e evitar o assalto.

    Foi um dos corredores dessa livraria que Sam pegou a “doença”. Ele avistou o livro “The Education of a Bodybuilder” de Arnold Schwarzenegger.

    Com todos aqueles músculos, ninguém poderia ser uma vítima. Seria como uma armadura dos tempos modernos, uma fortaleza humana.

    Sam relata que sentia que com todos aqueles músculos, ninguém nunca iria se meter com ele. E ele, por sua vez, nunca teria que mostrar o covarde que era. O plano era simples, ele só teria que se tornar gigantesco. Seria o sistema perfeito de auto-defesa. O que ele ainda não sabia, é que 36 kgs de músculos depois, aquilo se tornaria seu sistema de ataque.

    E é isso que o livro irá nos mostrar, como um cara magrelo e frágil, com baixa auto-estima e auto-confiança ( alguém se enxerga nessa descrição? Aposto que muitos, inclusive eu.) encontra no bodybuilding uma maneira de superar seus medos e se tornar mais auto-confiante.

    Alguns conseguem realmente crescer pro dentro e usar essas mudanças de forma construtiva, transferir a recém-conquistada confiança em outros aspectos da vida como o trabalho e vida amorosa.

     Outros, tornam-se perfeitos idiotas, egocêntricos, obsessivos com o espelho e seu físico, deixando de lado as necessidades básicas suas e de suas famílias.

    Eu escrevo este texto e usarei a história desse livro para ressaltar a cultura do bodybuilding e uma fase, de certa forma romântica, do esporte na costa oeste dos EUA nos anos 80. Mas também irei ilustrar o lado ruim do bodybuilding e como comportamentos ruins podem ser exacerbados com isso tudo.

    No Próximo capítulo, Sam entra na academia e começa realmente a treinar e conhecer o mundo do fisiculturismo.