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  • COMO SE TORNAR UM CULTURISTA – EPISÓDIO III –

    COMO SE TORNAR UM CULTURISTA – EPISÓDIO III –

    Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.

    Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.

    A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens são reais, exceto Leo.

    Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos são caricatos e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.com.br

    Gostaria de agradecer o grande número de e-mails que recebi a respeito da saga Leo. A aprovação do público foi instantânea e provavelmente a série terá a duração prevista inicialmente de dez episódios. Algumas pessoas que treinam na mesma academia que eu, vieram me perguntar se o Leo realmente existia e quem ele era. Infelizmente o Leo não existe, é fruto de uma mistura de várias pessoas que conheci e fatos que ouvi ao longo de minha vida na academia. O nome da personagem é Leonel, por isso o apelido Leo. A grande maioria dos outros personagens é real, mas seus nomes foram mudados e nem todos os seus atos correspondem as suas ações de verdade. Nenhum dos fatos narrados aqui ocorreu de verdade. Gostaria de reforçar que esta é uma história fictícia e que não deve ser considerada como fonte de informações para nenhum tipo de pessoa.

     

    Episódio III – O Primeiro Treino de Verdade

     

    Mais tarde naquele dia, depois de fazer a aposta, fiquei pensando se havia feito um bom negócio. Valia mesmo a pena ajudar tanto assim aquele menino? Por mais que eu tentasse me desligar daquilo, aqueles pensamentos sempre me voltavam a minha cabeça. Esse Leo não parece gostar tanto assim de musculação. Ele também não parecia ter a tenacidade e dedicação necessários para enfrentar os rigores de treinos árduos e dieta mais que espartana. Logo depois eu tentava me iludir e me convencer de que o menino se superaria e o mais importante: Superaria as minhas expectativas. Ele tinha cacife para isso, ele tinha todas as ferramentas necessárias. Seria ele destinado ao sucesso? Seria eu a pessoa capaz de fazer com que o Leo atingisse todo seu potencial? Não sei…

     

    Nosso segundo treino seria na próxima manhã. Eu nem sabia se o leo acordava cedo ou não. As Dez em ponto eu estava na academia. Para minha surpresa ele estava lá a minha espera, sentado lendo uma Boa Forma.

    “Vamos treinar!” falei alto para ver o estado de alerta do rapaz. Ele quase pulou do banco onde estava sentado. O susto foi grande.

    Já refeito do susto, Leo levanta-se e vem me cumprimentar. Percebi que ele estava andando de uma maneira meio estranha. “O que foi Leo? Você está com dor nas pernas?” Disse sorrindo. “Vai pro Inferno Miguel! Minhas pernas estão me matando, não consigo nem me sentar!” Nesse instante Leo se vira e ruma para a esteira. Suas pernas não se dobravam ao andar, parecia que ele andava tentando mantê-las separadas uma da outra. Parecia que estava assado.

    O Agachamento pode ser um exercício ótimo para desenvolver as pernas, mas os resultados no outro dia, ou no próximo são devastadoras para aqueles que ainda não estão muito acostumados a fazê-lo. Invariavelmente vejo pessoas realizando o exercício com uma forma incorreta, o que pode ser mortal mais adiante, quando a pessoa fica mais forte e começa a utilizar cargas mais altas.

    Enquanto nosso futuro Herói se aquecia e soltava as pernas na esteira, eu conversava com o Ricardo, dono da academia e testemunha da aposta. “É Chain, você não acha que essa aposta foi um pouco demais? De qualquer forma você perde. O cara quer sua ajuda e você, além de ajudar de graça vai ter que fazer aposta para motiva-lo? Será que isso vale a pena?” Aquela mesma pergunta voltava à tona – Será que vale tanto esforço para ajudar esse menino? – Sempre confiei muito na intuição do Ricardo, até aquele dia ele nunca havia se enganado sobre o possível desempenho de uma pessoa dentro da academia. Mas só até aquele dia, pois o Leo iria mostrar para todos que podia fazer o impossível. Pelo menos era isso que eu esperava.

    Fiquei extremamente decepcionado com o fato do Leo ter abandonado o treino no dia anterior. Ele poderia ter feito tudo menos deixar o treino e ir fazer o que bem entendia. Hoje as coisas deveriam ser diferentes e eu precisava mostrar para ele quem realmente mandava. Era dia de costas e eu pretendia mostrar mais um dos exercícios básicos da musculação que pouca gente fazia – A Barra Fixa – com tantas máquinas sofisticadas hoje em dia e tanta facilidade na hora de fazer as puxadas no dia de costas, a barra fixa se tornou uma coisa esquecida em algumas academias. Não digo que se tornaram inúteis, pois muita gente se pendura nelas para se alongar, mas quase ninguém a usa para puxar o próprio corpo para cima e treinar os dorsais.

    “Está preparado agora? As pernas melhoraram?” Como se eu não soubesse a resposta… “Não Miguel. As dores passaram um pouco, só está um pouco complicado para andar mas vamos para o treino!”

    Desta vez ele não ia me escapar, era preciso estabelecer algumas regras e deixar bem claro que o não cumprimento delas acarretaria sérias conseqüências. “leo, você já fez barra fixa alguma vez na sua vida? Alguma vez você já puxou esses noventa e tantos quilos para cima?” A resposta veio rapidamente e não soou muito confiante. ” Nunca fiz Miguel, mas hoje prometo que farei o que você me pedir ou mandar.” Algo me dizia que eu não poderia confiar muito naquela promessa mas resolvi arriscar. “Hoje você vai fazer barra fixa. Sei que você é meio pesado e que talvez não vá conseguir fazer o número esperado de repetições por série. Então vou te dar uma colher de chá, faça quantas repetições for possível e depois descanse um pouco para fazer a próxima série, ok?” O pupilo prontamente respondeu- “Sim Senhor! Serão três ou quatro séries?” Coitado, nem sabia o que viria pela frente. ” Leo, serão 120 repetições. A idéia era fazer 12 séries de dez, mas como eu sabia que você não iria agüentar isso hoje, resolvi deixar que você faça as 120 repetições da forma que quiser. Podem ser 20 séries de seis ou cento e vinte séries de uma repetição, não importa. Só quero que faça as cento e vinte.” O desconsolo e o desespero se tornaram evidentes no rosto de nosso futuro herói e por um momento a imagem dele fugindo correndo pela academia e pulando a catraca da portaria me veio á cabeça.

    No momento seguinte vi um semblante de resignação, de determinação no rosto de Leo. Era a sua segunda personalidade aparecendo, talvez Leo fosse um daqueles caras que se torna outra pessoa em situações de stress extremo. Ele se pendurou na barra, amarrou os straps e fez oito repetições com algum esforço. Assim que ele desceu ele ,e olhou e disse- “Meu, só faltam 112!! É sério que vou ter que fazer tudo isso?” A minha resposta foi como um tapa na cara de Leo – “Sobe na barra e faz mais uma série. Rápido!”

    Nessa hora fui até a portaria e pedi ao secretário que me emprestasse o rolo de silver tape . Corri até a barra fixa e o Leo ainda estava se preparando para começar a segunda série. Sem que ele percebesse eu passei a silver tape em torno de seu punho pregando seu punho na barra. Ele me olhou torto e assustado perguntando: ” O que é isso? Você vai me amarrar?” – Tarde demais já estava amarrado. Passei a fita adesiva em volta de seus pulsos e amarrei na barra prendendo suas mãos. Nosso futuro Herói estava preso à barra fixa. Agora com certeza ele faria o treino completo.

    “O Senhor só sai daí quando fizer as cento e vinte repetições. Eu espero, fica tranqüilo.” A segunda série foi feita e mais oito repetições adicionadas à contagem geral. Agora tínhamos 16 e faltavam cento e quatro repetições. O dono da academia, Ricardo chega por lá e vê a cena inusitada. A cara de perplexidade dele era indescritível. Ele chegou perto de mim com a mão cobrindo a boca. Pensei que ele iria me pedir para soltar o menino mas ele me deu um tapinha nas costas dizendo: “Nossa, como eu nunca pensei nisso antes?”

    O Ricardo gostava de fazer umas torturas de vez em quando, já vi ele algemando uma aluna na esteira. De brincadeira, claro, mas ela teve que fazer o tempo necessário para ser solta. Enquanto olhávamos para o leo pendurado, parecendo uma mortadela na padaria, o Ricardo me cutucou e disse- ” Ah, espera aí que vou te trazer uma coisinha que vai ajudar a motivar o menino.” Ele saiu correndo, entrou no carro e saiu.

    “Vamos fazer a próxima série Leo?” O rapaz começou a terceira série, já estava vermelho antes de começar, só o fato dele ficar pendurado dificultava a sua respiração e isso talvez fosse atrapalhar um pouco. Mais sete repetições foram feitas. Ele estava indo muito bem. “Miguel! Pelo Amor de Deus me solta daqui! Eu vou morrer! Eu não agüento mais fazer uma repetição!” Por um momento fiquei comovido, mas logo isso passou. Deixei ele descansar mais uns segundos e ordenei que a quarta série fosse iniciada. Ele não conseguiu fazer nenhuma.

    Eu ia começar a soltar a fita adesiva quando o Ricardo chega correndo e gritando. “Não solta o Touro não! Cheguei com a motivação extra!” Seria um shake milagroso? Um Cd com Psy indiano que iria hipnotizar nosso pupilo e faze-lo treinar? Não! Era um teaser, aquelas maquininhas que os policias usam para dar choques nos bandidos e paralisá-los. Provavelmente era uma com menor voltagem. Ele se aproximou de nós e começou a apertar o botão fazendo com que a corrente elétrica percorresse os terminais e fizesse aquele barulho inconfundível.

    “Leo, você vai continuar o treino e fazer as 97 repetições restantes ou quer uma energia extra?” Ricardo proferiu a frase enquanto apertava o gatilho e mostrava o aparelinho de choques funcionando. Imediatamente os olhos de Leo se arregalaram e ele fez doze repetições. “Doze? Seu Sem-Vergonha! Ricardo, me empresta isso por favor!” Fiquei cego de raiva pro ele ter feito doze repetições quando havia dito que não consegui nenhuma e tive que ser segurado para não dar um choque nele.

    Depois de uma hora e vinte minutos e a bateria inteira da maquininha de choques ter sido descarregada, Leo termina o treino. Ele estava realmente exaurido, acabado. Avisei que estava tudo terminado e que era hora de tomar o shake pós treino e providenciar algo para comer.

    Fui guardar minhas coisas na mala de treino e vi o Leo se dirigindo para a recepção. Ele pedira o telefone emprestado. Arrumei minhas coisas e fui em direção da recepção também. Chegando perto do Leo não tive como não escutar a conversa que ele tinha ao telefone- “Alô Mãe? É o Leo. Eu acabei o treino e estou indo almoçar, a Senhora podia fazer aquela sopinha de legumes pra mim?” Sopinha de legumes? Será que eu estava ouvindo direito? Será que todos esses anos de treino pesado começaram a afetar minha audição? “É Mãe, aquela sopinha com batata, cenoura,… Ahhhhhh!!!!” Não, a minha audição não estava me traindo e assim que ele começou aquela frase eu mandei um tapão na cabeça dele. Desliga esse telefone meu amigo. Você vai almoçar comigo hoje. Vamos aproveitar a falar um pouco sobre nutrição.

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  • COMO SE TORNAR UM CULTURISTA – EPISÓDIO II

    COMO SE TORNAR UM CULTURISTA – EPISÓDIO II

    COMO SE TORNAR UM CULTURISTA

    Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.

    Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.

    A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens são reais, exceto Leo.

    Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos são caricatos e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.com.br

    Gostaria de agradecer o grande número de e-mails que recebi a respeito da saga Leo. A aprovação do público foi instantânea e provavelmente a série terá a duração prevista inicialmente de dez episódios. Algumas pessoas que treinam na mesma academia que eu, vieram me perguntar se o Leo realmente existia e quem ele era. Infelizmente o Leo não existe, é fruto de uma mistura de várias pessoas que conheci e fatos que ouvi ao longo de minha vida na academia. O nome da personagem é Leonel, por isso o apelido Leo. A grande maioria dos outros personagens é real, mas seus nomes foram mudados e nem todos os seus atos correspondem as suas ações de verdade. Nenhum dos fatos narrados aqui ocorreu de verdade. Gostaria de reforçar que esta é uma história fictícia e que não deve ser considerada como fonte de informações para nenhum tipo de pessoa.

    Episódio II – A Aposta

     

    Naquela noite fiquei pensando se realmente eu teria feito a coisa certa. Ajudar este menino não se tornaria uma grande dor de cabeça daqui a um tempo? Ele não iria atrapalhar meus treinos? Eu via um grande potencial nele, mas aquilo era o que ele realmente queria? Não seria um capricho temporário dele? Leo me parecia um menino um tanto quanto mimado pelos pais. Foi uma longa, difícil para pegar no sono. Passei parte da madrugada assistindo os Simpsons até que finalmente peguei no sono.

    Havia muito trabalho a ser feito na manhã seguinte. Levantei as seis e meia da matina, fui rumo a cozinha e preparei meu café da manhã – um Shake de albumina e algumas torradas integrais lambuzadas de creme de amendoim. Conforme as horas passavam percebi que seria impossível treinar naquela manhã. Liguei para o Leo, me desculpei e perguntei se era possível treinarmos a noite. “Que horas da noite Miguel?” Indagava nosso aspirante a culturista. “Oito e meia da noite. Esteja lá quando eu chegar.”

    Aquele foi um dia inspirador para mim, consegui fazer tudo o que precisava no trabalho, fiz todas as refeições na hora certa e tudo parecia conspirar para que um grande treino fosse feito naquela noite. Hoje vamos ver se o menino consegue sair vivo. Será sua prova de fogo. Não preciso dizer que estava com os dois pés atrás com o Leo. Apesar de todo o seu potencial, ombros largos, estrutura óssea boa, tinha até um certo volume muscular, eu não conseguia perceber os “Olhos de Tigre” , aquele semblante de vencedor…

    As Oito em ponto comecei a me preparar para o treino, fiz um copão de café (sim, eram oito horas da noite, mas tomei 200 ml de café) vesti a roupa de treino, uma calça e uma camiseta, com um moletom por cima. Quando sai na porta de casa pude finalmente perceber como estava frio. Era uma noite de inverno em São Carlos. No inverno, as noites geralmente são muito frias aqui na cidade, os fortes e intensos ventos dão a sensação de que está muito mais frio. Enquanto dirigia eu pensava: “Será que esse menino vai mesmo sair de casa nesse frio para ir treinar?” Momentos depois eu já começava a me sentir mal por duvidar tanto do garoto. Talvez eu estivesse enganado e ele se sairá bem.

    Cheguei na academia as oito e vinte e cinco, não havia uma bendita vaga perto da porta. Fui obrigado a estacionar o carro meio longe. Entrei na academia e percebi que o Leo não estava lá ainda. Fui para a esteira e comecei a caminhar devagar, para garantir um bom aquecimento. Oito e meia, oito e trinta e cinco e nada. Continuei caminhando. Instantes depois o dono da academia, Ricardo Leha ( lê-se Lerrá), se aproxima perguntando se o rapaz viria treinar comigo. Afirmei com a cabeça, já estava ficando mal humorado com o atraso de Leo. “Miguel, você assustou o menino ontem. Acho que ele não vem. Além de tudo ele na parecia ter os três ‘D’s – Dedicação, Disciplina e Determinação. E você sabe que isso é essencial para um atleta de sucesso.” Como quase sempre, o Ricardo tinha opiniões e impressões sobre os fatos e pessoas.

    Oito e quarenta e dois vi que o nosso futuro herói chegava na academia. Estava bem frio naquela noite, mas parecia que ele estava chegando do Pólo Norte – vestia uma calça, uma enorme jaqueta, cachecol (cachecol? Eu não acredito que ele fez isso!) e um gorrinho de lã. “Desculpe a demora” Balbuciou meio tímido. ” Não estava achando meu gorrinho”. O que? “Você vai treinar ou desfilar? Tá louco? Estou esperando aqui há um tempão!” Já estava bem nervoso nessa altura da história.

    “Bem, vamos treinar, me deixe pegar meu cinto e minhas joelheiras. Mudei de idéia, pensei bem e achei que não seria mesmo bom você treinar costas por dois dias seguidos. Vamos treinar pernas hoje e costas amanhã.”

    “Puxa vida Miguel, costas amanhã? Amanhã é dia de descanso.” Esse ainda não havia percebido que era eu quem ia montar e comandar os treinos. “Amanhã é dia de costas e ponto final. Fica frio que tudo vai dar certo.”

    Eu estava inspirado naquela noite, como disse antes tudo parecia conspirar para um grande treino de pernas. Começamos fazendo uma super série de agachamento livre na barra e extensões de joelho na mesa romana. O esquema era esse, fazíamos 20 repetições no agachamento e sem descanso íamos fazer mais 20 repetições na mesa extensora. Sem dúvida era uma série extremamente difícil e desgastante. Fiz as primeiras vinte reps com 80 kgs no agachamento e vinte reps na mesa romana.

    Na hora em que o Leo foi fazer, percebi que ele não era adepto do agachamento. Ele não tinha técnica nenhuma, descia pouco, jogava o tronco muito para frente. Pedi que ele descesse bem mais e percebi que ele estava muito inseguro. “Deixa de ser Viado e desce Rapaz! Confie na ajuda! Vamos!” Me posicionei atrás do Leo para uma eventual ajuda e novamente percebi que ele estava desconfortável, tanto com o exercício, como comigo atrás dele. Ele não é acostumado a fazer este exercício, então as técnicas corretas de auxilio são novidade para ele. Acabadas as vinte repetições, lá vai o Leo para a mesa extensora. No agachamento ele usou apenas 30 míseros quilos, e nem desceu tanto assim. Tudo bem vai, foi um bom começo. Na mesa romana ele conseguiu usar a mesma carga que eu.

    Na última série do meu pupilo, achei que ele não faria nem dez repetições. Deixei isso bem claro para ele: “É Leo, você foi bem até agora, mas duvido que você faça dez nessa série, você vai desmaiar meu amigo.” Mas ele me surpreendeu, fez as vinte, berrando, ficando vermelho, parecia que ia explodir. Foi para a mesa romana e fez incríveis 35 repetições. Parecia que de alguma forma, meu comentário desencorajador mexeu com o psicológico dele e despertou um monstro.

    Continuamos o treino com avanço andando agora. Este é um exercício antigo, esquecido, que foi colocado à tona alguns anos atrás por Ronnie Coleman. Agora sabemos que a maioria dos atletas na Metroflex Gym, no Texas, faziam tal exercício. Hoje todo cara que treina sério e procura boas pernas faz este exercício. Não preciso dizer que nosso futuro herói nunca havia feito isso também. “Como eram seus treinos de pernas Leo? – Subia as escadas do Habib´s?” Perguntei já desesperado. ” Quase isso, na verdade tenho uma genética boa de pernas, pedalo um pouco aos fins de semana. Se fizer muita perna elas crescem demais.” Já querendo jogar um halter de 30 kgs na cabeça dele me recompus e tentei abrir aquela mente. “Leo, mesmo que você ache isso, é preciso treinar pernas para deixar a musculatura mais densa, para fazer cortes profundos entre os músculos, enfim dar qualidade ao músculo.” Vamos continuar este treino!

    Por mais que ele estivesse todo desajeitado fazendo o exercício, parecia que estava se esforçando. Ainda falta muito para o Leo. É preciso dominar a técnica perfeita de execução dos exercícios para se conseguir extrair os maiores resultados. No avanço andando ele parava no meio da série, não descia tanto, se desequilibrava a todo momento. “Miguel! Porque não treinamos como todo mundo? Fazendo leg-press, mesa extensora e flexora?” Tentava falar o Leo, quase engasgando pela respiração acelerada e a falta de ar. “Você pro acaso quer ter o mesmo físico que todo mundo? Ou quer ser melhor? Você pretende ir a um campeonato, certo? Então meu amigo, você terá que fazer coisas que ninguém mais faz. Você está disposto a isso? Já estou começando a achar que não.” Fiquei um pouco preocupado, pois não queria magoar o menino. Apesar de tudo eu estava começando a gostar dele. Parecia um bom menino.

    Seguindo o treino fomos fechar a noite com uma super série de mesa flexora e stiff. Era clara a expressão de desânimo no rosto de Leo quando citei os próximos exercícios. Fui preparar a mesa flexora e separar os halteres que usaríamos no stiff. Quando voltei vi o Leo sentado na cadeira abdutora. ” Vamos Leo, venha começar a série.” Imediatamente ele respondeu: ” Não vou Miguel, stiff ferra minhas costas. Além do mais já percebi que não vou conseguir mesmo. Já percebi que não tenho a força de vontade necessária, nem a genética para me tornar um culturista.” Aquele discurso foi como um balde de água fria na minha cabeça. Será que eu estava mesmo certo? Será que todos aqueles pensamentos na noite anterior eram uma premonição?

    Terminei meu treino, ele terminou o dele fazendo três séries de cadeira abdutora. Claro que havia alguns amigos nossos da academia acompanhando o nosso treino. Em poucos minutos os caras já estavam falando e brincando: Se vai treinar pesado, treine! Ou senão você pode ir fazer cadeira abdutora! Risos eram ouvidos após a piada ser repetida várias vezes. Aquilo me deixou chateado, eu acreditava tanto naquele menino. Não era possível que ele iria me desapontar. Precisa elevar o moral dele e dar um animo extra para o Leo.

    Usei as palavras do sábio Ricardo, o dono da academia. “Leo, não é por que as coisas foram difíceis hoje que você deve desistir. Não é fácil ser um culturista e você sabia disso. Por isso me chamou para ajudá-lo. Uma vez um amigo me disse que para ter sucesso na academia e nos palcos são necessários três ‘D’s – Dedicação, Determinação e Disciplina. Não desista agora. Apesar de tudo você foi bem. Percebi que você pode ter sucesso, basta acreditar em si mesmo.” Te vejo amanhã para treinar costas.

    “Não vamos mais treinar juntos Miguel. Sério, vi que nunca vou ser capaz de ficar tão seco a ponto se subir em um palco. Não sei se vou conseguir parar de tomar os milk shakes de Ovomaltine do Bob´s. Também já que nem as veias no antebraço vão aparecer. Mas obrigado mesmo assim.” A tristeza na voz de Leo era aparente. Mas nem tudo estava perdido.

    “Vamos fazer assim Leo, te garanto que você terá veias nos seus braços em três meses. Além disso eu já havia deixado claro para você ontem que não queria mais um menino que fosse fugir depois do primeiro treino. Finge que é Homem e venha treinar amanhã as sete da manhã.” Em um instante a expressão no rosto do Leo mudou completamente. “Você acha que sou um moleque? Não sou não. Mas sei que ao conseguir.” Vi que a situação era extrema e precisava pegar fundo no brio desse cara. “Quer apostar que você terá veias nesses braços brancos em três meses?” Mais uma vez a expressão no rosto dele mudou. Ele estava espantado. “Leo, nós vamos treinar juntos três meses, você vai fazer exatamente o que eu disser, vai comer exatamente o que mandar, ok? Se suas veias no antebraço não aparentes, você será meu treinador e eu farei o que você quiser por um mês. Topa?”

    Leo estendeu a mão fazendo um sinal positivo com a cabeça. Demos as mãos selando o negócio. O Ricardo estava ao nosso lado e era testemunha do acordo. Estava feita a aposta.

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