COMO SE TORNAR UM CULTURISTA – EPISÓDIO III –

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Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.

Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.

A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens são reais, exceto Leo.

Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos são caricatos e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.com.br

Gostaria de agradecer o grande número de e-mails que recebi a respeito da saga Leo. A aprovação do público foi instantânea e provavelmente a série terá a duração prevista inicialmente de dez episódios. Algumas pessoas que treinam na mesma academia que eu, vieram me perguntar se o Leo realmente existia e quem ele era. Infelizmente o Leo não existe, é fruto de uma mistura de várias pessoas que conheci e fatos que ouvi ao longo de minha vida na academia. O nome da personagem é Leonel, por isso o apelido Leo. A grande maioria dos outros personagens é real, mas seus nomes foram mudados e nem todos os seus atos correspondem as suas ações de verdade. Nenhum dos fatos narrados aqui ocorreu de verdade. Gostaria de reforçar que esta é uma história fictícia e que não deve ser considerada como fonte de informações para nenhum tipo de pessoa.

 

Episódio III – O Primeiro Treino de Verdade

 

Mais tarde naquele dia, depois de fazer a aposta, fiquei pensando se havia feito um bom negócio. Valia mesmo a pena ajudar tanto assim aquele menino? Por mais que eu tentasse me desligar daquilo, aqueles pensamentos sempre me voltavam a minha cabeça. Esse Leo não parece gostar tanto assim de musculação. Ele também não parecia ter a tenacidade e dedicação necessários para enfrentar os rigores de treinos árduos e dieta mais que espartana. Logo depois eu tentava me iludir e me convencer de que o menino se superaria e o mais importante: Superaria as minhas expectativas. Ele tinha cacife para isso, ele tinha todas as ferramentas necessárias. Seria ele destinado ao sucesso? Seria eu a pessoa capaz de fazer com que o Leo atingisse todo seu potencial? Não sei…

 

Nosso segundo treino seria na próxima manhã. Eu nem sabia se o leo acordava cedo ou não. As Dez em ponto eu estava na academia. Para minha surpresa ele estava lá a minha espera, sentado lendo uma Boa Forma.

“Vamos treinar!” falei alto para ver o estado de alerta do rapaz. Ele quase pulou do banco onde estava sentado. O susto foi grande.

Já refeito do susto, Leo levanta-se e vem me cumprimentar. Percebi que ele estava andando de uma maneira meio estranha. “O que foi Leo? Você está com dor nas pernas?” Disse sorrindo. “Vai pro Inferno Miguel! Minhas pernas estão me matando, não consigo nem me sentar!” Nesse instante Leo se vira e ruma para a esteira. Suas pernas não se dobravam ao andar, parecia que ele andava tentando mantê-las separadas uma da outra. Parecia que estava assado.

O Agachamento pode ser um exercício ótimo para desenvolver as pernas, mas os resultados no outro dia, ou no próximo são devastadoras para aqueles que ainda não estão muito acostumados a fazê-lo. Invariavelmente vejo pessoas realizando o exercício com uma forma incorreta, o que pode ser mortal mais adiante, quando a pessoa fica mais forte e começa a utilizar cargas mais altas.

Enquanto nosso futuro Herói se aquecia e soltava as pernas na esteira, eu conversava com o Ricardo, dono da academia e testemunha da aposta. “É Chain, você não acha que essa aposta foi um pouco demais? De qualquer forma você perde. O cara quer sua ajuda e você, além de ajudar de graça vai ter que fazer aposta para motiva-lo? Será que isso vale a pena?” Aquela mesma pergunta voltava à tona – Será que vale tanto esforço para ajudar esse menino? – Sempre confiei muito na intuição do Ricardo, até aquele dia ele nunca havia se enganado sobre o possível desempenho de uma pessoa dentro da academia. Mas só até aquele dia, pois o Leo iria mostrar para todos que podia fazer o impossível. Pelo menos era isso que eu esperava.

Fiquei extremamente decepcionado com o fato do Leo ter abandonado o treino no dia anterior. Ele poderia ter feito tudo menos deixar o treino e ir fazer o que bem entendia. Hoje as coisas deveriam ser diferentes e eu precisava mostrar para ele quem realmente mandava. Era dia de costas e eu pretendia mostrar mais um dos exercícios básicos da musculação que pouca gente fazia – A Barra Fixa – com tantas máquinas sofisticadas hoje em dia e tanta facilidade na hora de fazer as puxadas no dia de costas, a barra fixa se tornou uma coisa esquecida em algumas academias. Não digo que se tornaram inúteis, pois muita gente se pendura nelas para se alongar, mas quase ninguém a usa para puxar o próprio corpo para cima e treinar os dorsais.

“Está preparado agora? As pernas melhoraram?” Como se eu não soubesse a resposta… “Não Miguel. As dores passaram um pouco, só está um pouco complicado para andar mas vamos para o treino!”

Desta vez ele não ia me escapar, era preciso estabelecer algumas regras e deixar bem claro que o não cumprimento delas acarretaria sérias conseqüências. “leo, você já fez barra fixa alguma vez na sua vida? Alguma vez você já puxou esses noventa e tantos quilos para cima?” A resposta veio rapidamente e não soou muito confiante. ” Nunca fiz Miguel, mas hoje prometo que farei o que você me pedir ou mandar.” Algo me dizia que eu não poderia confiar muito naquela promessa mas resolvi arriscar. “Hoje você vai fazer barra fixa. Sei que você é meio pesado e que talvez não vá conseguir fazer o número esperado de repetições por série. Então vou te dar uma colher de chá, faça quantas repetições for possível e depois descanse um pouco para fazer a próxima série, ok?” O pupilo prontamente respondeu- “Sim Senhor! Serão três ou quatro séries?” Coitado, nem sabia o que viria pela frente. ” Leo, serão 120 repetições. A idéia era fazer 12 séries de dez, mas como eu sabia que você não iria agüentar isso hoje, resolvi deixar que você faça as 120 repetições da forma que quiser. Podem ser 20 séries de seis ou cento e vinte séries de uma repetição, não importa. Só quero que faça as cento e vinte.” O desconsolo e o desespero se tornaram evidentes no rosto de nosso futuro herói e por um momento a imagem dele fugindo correndo pela academia e pulando a catraca da portaria me veio á cabeça.

No momento seguinte vi um semblante de resignação, de determinação no rosto de Leo. Era a sua segunda personalidade aparecendo, talvez Leo fosse um daqueles caras que se torna outra pessoa em situações de stress extremo. Ele se pendurou na barra, amarrou os straps e fez oito repetições com algum esforço. Assim que ele desceu ele ,e olhou e disse- “Meu, só faltam 112!! É sério que vou ter que fazer tudo isso?” A minha resposta foi como um tapa na cara de Leo – “Sobe na barra e faz mais uma série. Rápido!”

Nessa hora fui até a portaria e pedi ao secretário que me emprestasse o rolo de silver tape . Corri até a barra fixa e o Leo ainda estava se preparando para começar a segunda série. Sem que ele percebesse eu passei a silver tape em torno de seu punho pregando seu punho na barra. Ele me olhou torto e assustado perguntando: ” O que é isso? Você vai me amarrar?” – Tarde demais já estava amarrado. Passei a fita adesiva em volta de seus pulsos e amarrei na barra prendendo suas mãos. Nosso futuro Herói estava preso à barra fixa. Agora com certeza ele faria o treino completo.

“O Senhor só sai daí quando fizer as cento e vinte repetições. Eu espero, fica tranqüilo.” A segunda série foi feita e mais oito repetições adicionadas à contagem geral. Agora tínhamos 16 e faltavam cento e quatro repetições. O dono da academia, Ricardo chega por lá e vê a cena inusitada. A cara de perplexidade dele era indescritível. Ele chegou perto de mim com a mão cobrindo a boca. Pensei que ele iria me pedir para soltar o menino mas ele me deu um tapinha nas costas dizendo: “Nossa, como eu nunca pensei nisso antes?”

O Ricardo gostava de fazer umas torturas de vez em quando, já vi ele algemando uma aluna na esteira. De brincadeira, claro, mas ela teve que fazer o tempo necessário para ser solta. Enquanto olhávamos para o leo pendurado, parecendo uma mortadela na padaria, o Ricardo me cutucou e disse- ” Ah, espera aí que vou te trazer uma coisinha que vai ajudar a motivar o menino.” Ele saiu correndo, entrou no carro e saiu.

“Vamos fazer a próxima série Leo?” O rapaz começou a terceira série, já estava vermelho antes de começar, só o fato dele ficar pendurado dificultava a sua respiração e isso talvez fosse atrapalhar um pouco. Mais sete repetições foram feitas. Ele estava indo muito bem. “Miguel! Pelo Amor de Deus me solta daqui! Eu vou morrer! Eu não agüento mais fazer uma repetição!” Por um momento fiquei comovido, mas logo isso passou. Deixei ele descansar mais uns segundos e ordenei que a quarta série fosse iniciada. Ele não conseguiu fazer nenhuma.

Eu ia começar a soltar a fita adesiva quando o Ricardo chega correndo e gritando. “Não solta o Touro não! Cheguei com a motivação extra!” Seria um shake milagroso? Um Cd com Psy indiano que iria hipnotizar nosso pupilo e faze-lo treinar? Não! Era um teaser, aquelas maquininhas que os policias usam para dar choques nos bandidos e paralisá-los. Provavelmente era uma com menor voltagem. Ele se aproximou de nós e começou a apertar o botão fazendo com que a corrente elétrica percorresse os terminais e fizesse aquele barulho inconfundível.

“Leo, você vai continuar o treino e fazer as 97 repetições restantes ou quer uma energia extra?” Ricardo proferiu a frase enquanto apertava o gatilho e mostrava o aparelinho de choques funcionando. Imediatamente os olhos de Leo se arregalaram e ele fez doze repetições. “Doze? Seu Sem-Vergonha! Ricardo, me empresta isso por favor!” Fiquei cego de raiva pro ele ter feito doze repetições quando havia dito que não consegui nenhuma e tive que ser segurado para não dar um choque nele.

Depois de uma hora e vinte minutos e a bateria inteira da maquininha de choques ter sido descarregada, Leo termina o treino. Ele estava realmente exaurido, acabado. Avisei que estava tudo terminado e que era hora de tomar o shake pós treino e providenciar algo para comer.

Fui guardar minhas coisas na mala de treino e vi o Leo se dirigindo para a recepção. Ele pedira o telefone emprestado. Arrumei minhas coisas e fui em direção da recepção também. Chegando perto do Leo não tive como não escutar a conversa que ele tinha ao telefone- “Alô Mãe? É o Leo. Eu acabei o treino e estou indo almoçar, a Senhora podia fazer aquela sopinha de legumes pra mim?” Sopinha de legumes? Será que eu estava ouvindo direito? Será que todos esses anos de treino pesado começaram a afetar minha audição? “É Mãe, aquela sopinha com batata, cenoura,… Ahhhhhh!!!!” Não, a minha audição não estava me traindo e assim que ele começou aquela frase eu mandei um tapão na cabeça dele. Desliga esse telefone meu amigo. Você vai almoçar comigo hoje. Vamos aproveitar a falar um pouco sobre nutrição.

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