A série Como se Tornar um Culturista foi a maior surpresa que já tive. A idéia e o episódio piloto já existiam desde 2006. Nunca achei que a série teria uma repercussão tão forte. Já após a publicação do primeiro episódio, minha caixa de e-mails se encheu com mensagens elogiando a saga.
Fico muito feliz e me sinto realizado pois recebo inúmeros e-mails e scraps no orkut de pessoas me dizendo como a saga de Leo as inspirou e motivou. Os pedidos para que se faça um livro também ocorrem semanalmente. Ter um livro publicado com esta história seria um sonho realizado. Ainda não temos recursos e apoio para que isso aconteça, mas em breve talvez tenhamos.
Segundo minhas previsões, a série deveria durar apenas dez episódios, mas o sucesso foi tão grande e o publico gostou tanto que eu achei que seria injusto terminar agora. Decidi fazer uma segunda temporada com mais dez episódios. Se tudo continuar assim, talvez tenhamos uma terceira e final temporada.
Na segunda temporada Leo fica meio de lado devido ás suas brigas. Começo a treinar com o Teles e o Gustavo. O Gustavo na verdade não se chama Gustavo. Ninguém sabe seu verdadeiro nome; nós o chamamos de Gustavo pois ele odeia o Gustavo Badel.
Durante a temporada muita coisa vai acontecer – treinos insanos, aparição de personagens novos, intrigas e tentativas de sabotagem nos treinos (adivinhem por parte de quem) e até um outro campeonato. Aguardem e confiram!
Episódio XI – Um Novo Começo
A experiência com o Leo havia me deixado meio desanimado e desmotivado para treinar outras pessoas. Eu gostava muito do Teles, mas nem conhecia o seu amigo Gustavo. Na hora em que ele me pediu que os treinasse não tive coragem de dizer não. Alguns amigos meus dizem que um dos meus grandes defeitos é não saber dizer não.
Marquei uma reunião entre nós três no outro dia na academia. Cheguei um pouco mais cedo e cumprimentei o Andrey, o novo recepcionista. Esse Andrey era um cara gente boa, que adorava conversar, fazia amigos facilmente. É um perfil muito bom para quem trabalha no cargo dele. Mas alguma coisa nesse cara me intrigava. Ele tinha uma paixão por motos enorme. Maior que sua paixão por motos era a sua moto, uma Kawasaki Ninja ZX 12R. Quem conhece um pouco sobre motos sabe que não é um brinquedo barato.
O cara trabalhava na academia, mas tinha uma moto de mais de R$40.000,00, eu não conseguia saber como isso era possível. Andrey sempre chegava bem cedo na academia. Ele era responsável por abrir as portas às sete da manhã. Às vezes eu o via com olheiras enormes. Engraçado que apesar de parecer que ele não dormia muito, nunca o víamos de mau humor. Bem, uma outra hora converso com ele ou pergunto para o Ricardo Lehat, dono da academia, sobre ele.
O Andrey é um cara muito solicito e assim que o cumprimentei ele já me avisou- “Miguel, bom dia! Olha tem um cara ali te esperando, ele estava com o Teles ontem.” – Era o Gustavo. O cara era pontual mesmo. Eu cheguei cedo, ele chegou antes de mim. Bom, muito bom.
“Bom dia Gustavo. Como vai? Onde está o Teles?”
“Oi Miguel, beleza? Você não conhece muito bem o Teles, não é mesmo? Ele nunca acorda cedo.”
“Ah é? Mas então ele deveria ter me avisado disso ontem, poderíamos ter marcado a reunião para mais tarde.” Puxa vida! O cara não acorda cedo. Que coisa. De jeito nenhum eu vou treinar um cara que marca os compromissos e não comparece. O Teles já começou mal.
“Gustavo, me fala uma coisa. Você treina há muito tempo?” Estava curioso para saber, pois esse menino tinha uma estrutura óssea grande e já havia colocado muito músculo nela. É claro que poderíamos melhorar muito ainda seu físico, mas ele tinha um potencial incrível.
“Treino há uns três anos, mas estou sério mesmo há quase um ano.” Explicou nosso mais novo amigo ogro.
Eu realmente fiquei impressionado com esse menino e ficaria feliz se um dia o visse no palco competindo. Mas me parecia que a idéia de competir não o agradava. “Eu não ficaria a vontade na frente de todo mundo vestindo só uma sunga.” O ogro explica.
Pouco tempo após começarmos nossa conversa, começo a ouvir uns gritos vindos lá da portaria. “Miguel! Miguel! O Teles chegou!” Era o Andrey, nosso mais novo recepcionista me avisando que meu novo pupilo havia chegado.
“Bom dia Miguel.” Apesar de tudo, o Teles havia chegado bem na hora que combinamos.
“Acordou cedo mesmo hein? Eu achava que você não vinha.” Comentou o Gustavo, sorrindo.
“Ô Mano, o trampo no restaurante foi duro ontem.”
Nem esperei ele terminar a frase. Teles e Gustavo, é o seguinte. Vocês sabem da historia do Leo, vocês sabem como eu mudei o físico dele. Ele acreditou em mim até quase o final. Foi uma decepção que tive depois de tudo. Contei a eles ainda que eu não pretendia treinar mais ninguém e que apenas iria ajudá-los de vez em quando dando uma ou outra dica de treino.
“Não Miguel! Espera um minuto! Por favor! Fiquei o ano passado todo observando você treinar o Leo. Eu via como era difícil para seguir o que você falava. Eu serei diferente.” O Teles estava mesmo tentando me persuadir.
Eu disse ao Teles que mesmo sem minha ajuda ele já havia conseguido um físico melhor do que o do Leo. Que talvez ele não precisasse de mim; Enfim, estava tentando me livrar dele.
O Teles, percebendo que eu estava irredutível, começou a jogar pesado. “Miguel, olha o cara que eu te trouxe, o Gustavo é um bom material. Se ele quiser competir, sei que você consegue torna-lo campeão brasileiro.”
Pensei comigo que talvez isso fosse até verdade, mas sabia que o Gustavo nunca iria competir. Sabendo disso, eu joguei sujo. Desta vez eu ia me livrar deles e poderia seguir minha vida tranqüilo, sem dor de cabeça. “Teles, meu caro, vamos combinar assim. Treino vocês. Mas com uma condição: Os dois têm que estar prontos para competir no campeonato do interior que teremos em exatas 13 semanas. Vocês me garantem que vão competir, eu garanto que os ajudo.” Já podia perceber o sorrisinho cínico em meu rosto, desta vez eu ganharia e ficaria livre. O Gustavo nunca iria topar competir, ainda mais estando a competição tão perto.
Podia ver no Teles a sua expressão de desespero, assim como eu, ele sabia que seu grande amigo Gustavo nunca iria competir.
Do outro lado da mesa estava Gustavo, o Ogro, só observando. Esse menino era o melhor amigo de Teles. As duas personalidades contrastavam e se diferenciavam diametralmente. De um lado tínhamos o Teles, cara extrovertido, que fala alto, brinca com todos, é super autoconfiante e não liga em se expor ao ridículo as vezes. Apesar de ter um bom físico para a sua idade, dezenove anos, não era dotado de ótima genética e teria que trabalhar muito em seu físico.
Do outro lado estava o Gustavo, cara quietão, introvertido, totalmente na dele. Muito educado e simpático, mas quietão. Não posso dizer que não tinha autoconfiança, mas nesse quesito, ele nem chegava aos pés do Teles. Pelo pouco que o conheci, ele nunca iria se expor em qualquer situação se não tivesse controle absoluto de tudo. Ele sim tem uma genética espetacular e se trabalhar duro e agüentar o tranco, poderia vir a ser um grande nome no esporte em pouco tempo.
O silencio tomou conta do recinto. Ninguém falava nada. Olhei para o Teles e ele estava com o olhar fixo no Gustavo. O Ogro, por sua vez, estava debruçado sobre a mesa. Mãos juntas e os dedos entrelaçados, seu olhar voltado para baixo. Um grande decisão estava por ser tomada.
“Tudo bem. Eu concordo. Vou competir dentro de 13 semanas. Você vai nos treinar?” Desta vez o Gustavo me surpreendeu. Ele topou competir! Como?
Perguntei ao Ogro se ele estava certo do que estava falando pois eu não iria tolerar ser enrolado depois.
Imediatamente o cara se levantou, jogando a cadeira para trás e deu um tapa na mesa: “Você acha que eu sou o que? Se estou falando que vou competir, eu vou competir!”
“Calma, calma! Só quis me certificar disso.” Achei que ele fosse calmo. Mas tudo bem. Ele topou, vamos se eles agüentam passar pelo teste.
Já havia se passado quase uma hora desde que a conversa tinha começado. Os dois foram preparar um shake,pois já estava na hora. Fiquei ali sentado, os esperando.
Então, Ricardo, o dono da academia, chega por ali e me pergunta o porquê da exaltação do Gustavo.
“Eu ouvi um barulho, quando me virei para olhar, vi que ele deu um tapa na mesa. Me desculpe mas não pude deixar de perceber o barulho. Está tudo bem?”
“Sim. Mas que estranho, achei que ele fosse um cara calmo, contido. Nem precisei provocar muito e ele explodiu. Fiquei preocupado agora.” Sempre gosto de conversar com o Ricardo, pois ele sempre tem uma visão diferente e muitas vezes mais apurada das coisas.
“Pense bem Miguel. Isso pode ser uma coisa boa. Imagine se você conseguir canalizar essas explosões durante os treinos. Esse cara vira um monstro em seis meses.”
“Pois é. Acho melhor ele canalizar nos treinos mesmo, pois eles vão competir em 13 semanas. Vão precisar de muita coisa nesse período.” Nesse momento o Ricardo olhou para mim com os olhos arregalados.
“Você vai fazer os caras competirem em 13 semanas? E você acha que eles têm condições?”
Expliquei ao Ricardo que o campeonato era de nível mediano e que talvez eles se dessem bem apesar do pouco tempo disponível para preparação. Mas que ainda eles teriam que passar por um treino de teste para ver se iriam conseguir agüentar o tranco.
Como que em um passe de mágica, a felicidade surgiu no rosto do Ricardo. Um enorme sorriso se abriu.
“Então vamos fazer aquele treino de costas, pendurando os caras na barra fixa e amarrando eles com silver tape? Já vou colocar a bateria da maquina de choques para carregar agora!” Logo após terminar a frase ele soltou uma risada diabólica.
Respondi que achava melhor fazer um treino surpresa, com alto volume desta vez. Mas que ele podia trazer a maquininha de choques.
Como os meninos ainda não haviam voltado, perguntei ao Ricardo sobre o Andrey e sua motocicleta.
Ele respondeu prontamente: “Você não sabe? Não conhece a historia do Andrey? Vou te contar então…”
Os meninos voltaram e entram na sala. Percebendo que precisava tratar algumas coisas sérias com eles, Ricardo se despede. “Falou gente, até mais, boa sorte! Ah, Miguel, depois te conto a história do Andrey.”
Como tinha um compromisso e precisava ir andando, chamei os dois para me acompanharem até a porta da academia. Chegando lá fora, demos de cara com Leo. Ele estava chegando para treinar. Nem olhou para a nossa cara. Passou direto. Pude perceber que seu rosto estava redondo, estava com cara de lua. Somente poucos dias haviam se passado desde o campeonato e ele já estava daquele jeito. Que coisa. Para me despedir dos meninos, fechei o acordo.
“Teles, temos um acordo então. Só que antes de começarmos de verdade, você será submetido a um teste.”
“Por que só eu? E o Gustavo?” Perguntava o espantado e indignado Pupilo.
“Porque eu sei que para o Gustavo esse não será um teste, será apenas mais um treino. Sei que ele vai agüentar tranqüilo. Você será testado e se sair vivo do treino amanhã, eu treino vocês.”
O preocupado Teles já começa com as perguntas. “Mas vai ser de manhã?”
“VAI!!!”
” Miguel, por acaso não é aquele treino de costas na barra fixa, ou é?” Indagava o cada vez mais tenso Teles.
Respondi-“Não vai ser aquele, vai ser um pior!”

