Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.
Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.
A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens é real, exceto Leo.
Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos é caricata e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.com.br
Gostaria de agradecer o grande número de e-mails que recebi a respeito da saga Leo. A aprovação do público foi instantânea e provavelmente a série terá a duração prevista inicialmente de dez episódios. Algumas pessoas que treinam na mesma academia que eu, vieram me perguntar se o Leo realmente existia e quem ele era. Infelizmente o Leo não existe, é fruto de uma mistura de várias pessoas que conheci e fatos que ouvi ao longo de minha vida na academia. O nome da personagem é Leonel, por isso o apelido Leo. A grande maioria dos outros personagens é real, mas seus nomes foram mudados e nem todos os seus atos correspondem as suas ações de verdade. Nenhum dos fatos narrados aqui ocorreu de verdade. Gostaria de reforçar que esta é uma história fictícia e que não deve ser considerada como fonte de informações para nenhum tipo de pessoa.
Episódio IX – A Última Semana
“VEIAS NO BRAÇO! EU TENHO VEIAS NO BRAÇO!” Era claro que a alegria por estar com uma definição muscular excelente estava deixando Leo nas alturas. Pela primeira vez ele era capaz de perceber veias saindo de seus antebraços fora do horário de treino. Estávamos treinando em um Sábado de Manhã, faltavam sete dias para o campeonato; Leo estava empolgado, não parecia muito ansioso. A dieta e o treino foram extenuantes nas últimas semanas, nosso herói havia conseguido alcançar uma condição razoavelmente boa. Como tínhamos pouco tempo, muita massa muscular foi sacrificada fazendo com que ele ficasse bem menor do que já era. A definição estava boa, ele quase não tinha gordura no corpo.
Nas últimas duas semanas um fato que me deixava chateado, mas não surpreso, aconteceu por diversas vezes. O Leo só ficava na frente do espelho, se admirando. Ele ficava repetindo para si mesmo como ele estava perfeito, como ele era o melhor da academia. A personalidade dele mudava junto com o físico. Ele estava mais arrogante e tinha umas crises de estrelismo. Outro dia ele percebeu que o Teles, filho do dono do restaurante, observava nosso treino. Prontamente ele chegou perto e disse: “Está vendo Teles? Hoje eu sou muito melhor do que você. Olha essa sua barriga, nem meu tio que vive nas numeradas do estádio de futebol assistindo aos jogos tem uma barriga deste tamanho!” Os lábios de Leo emitiam um sorrisinho cínico ao proferir as palavras. Teles riu na cara dele, dizendo que ele havia feito um ano de dieta para sair de um físico basista e para um de maratonista. Já fazia um tempo que o Teles nos observava, apenas o Leo, que vive no mundo da lua, não havia percebido ainda. Esse Teles é um menino bem esperto, inteligente. Ele fica só observando de longe, mas tenho a impressão de que ele capta tudo o que fazemos durante o treino. Ele é rápido, tem resposta para tudo. Não queiram tentar tirar um sarro na cara dele; ele vai dar o troco à altura.
O Teles tem uma personalidade totalmente oposta à do Leo. Enquanto meu Pupilo é meio tímido, bem retraído e muitas vezes muda de opinião minuto a minuto; o Teles é decidido, extrovertido e é muito cristalino em relação aos seus sentimentos. Eu conhecia o Teles há um bom tempo, mas estava claro que desde que eu havia começado a ajudar e treinar junto com o Leo, o Teles havia se distanciado um pouco.
Logo após o incidente fui falar com o Leo e o critiquei duramente:” Quem você pensa que é? Não pode falar com as pessoas assim. Não cante vitória antes do tempo, o campeonato nem começou e você já se acha o campeão mundial. Vai com calma!”
Eu sabia da real posição do Leo no campeonato, sabia que ele não iria ser o vencedor. Em um campeonato, você tem que apresentar a sua melhor condição física possível, se você tiver sucesso e isso acontecer, tudo ainda vai depender de quem você vai enfrentar. No Mr Olympia, Jay Cutler sabe que vai enfrentar Victor Martinez, Dexter Jackson etc, mas aqui no Brasil, em um campeonato de estreantes por exemplo, não existe a possibilidade de prevermos quem serão nossos adversários. No caso do Leo, teremos que rezar muito para que a classe dele no campeonato não traga atletas melhores e maiores, senão estaremos encrencados, bem encrencados. Mesmo assim eu sabia da condição dele, sabia que seria difícil todos no campeonato entrarem piores que ele. Se conseguirmos um terceiro lugar vou ficar muito feliz, mas pela experiência, sabia que isto seria difícil. Infelizmente o Leo não enxergava a situação desta maneira e acreditava piamente que iria arrasar no campeonato. Tomara que pelo menos desta vez ele esteja certo e eu errado.
Normalmente a última semana antes de um campeonato coloca o atleta em algumas das situações mais difíceis durante a preparação. Geralmente a consumo de carboidratos cai drasticamente por uns dias e sobe em outros; existe uma montanha-russa nos consumos de água, sódio, carbo, onde a ingestão dessas substancias oscila de quantidades astronômicas para praticamente zero ou vice-versa em um curto período de tempo. Geralmente usamos alguns artifícios para fazer o atleta parecer melhor e mais cheio no palco, como, por exemplo, depletar toda a reserva de glicogênio (carbo) em seu organismo e dias depois restaurar todos os depósitos desse nutriente. É bem difícil treinar intensamente e fazer aeróbio pesado, enquanto seu corpo não tem um grama de carboidrato para ajudar. Nos últimos um ou dois dias, o consumo de sódio também é racionado, chegamos a cortar quase a zero a ingestão em alguns casos. Vocês perceberam que o stress colocado no organismo nestes últimos dias é enorme.
No Domingo deixei o Leo comer boas quantidades de carboidrato. Neste dia ele não treinou também. Nesta última semana, faremos um treino para a parte superior do corpo em forma de séries gigantes e algum trabalho aeróbio pesado na Segunda, terça e Quarta-Feira. Nestes dias o consumo de carbo será zero para que toda a reserva de glicogênio de seu corpo seja exaurida.
Os treinos com pesos são relativamente mais leves, já que o intuito agora é apenas queimar os últimos gramas de carboidrato guardados no organismo e não estimular o aumento ou manutenção de massa muscular. Mas como tudo é feito em séries gigantes, agrupando 4 exercicios e os fazendo um atrás do outro, sem descanso, a coisa fica bem pesada. Os treinos de dos três dias, Segunda a Quarta, seriam idênticos. Doze exercícios, organizados 4 a 4 em três séries gigantes. Cada grupo de 4 exercícios, seria repetido três vezes antes de partirmos para o próximo grupo de quatro exercícios.
Logo depois da segunda série do primeiro grupo de exercícios o nosso herói já estava me demonstrando sua alegria. “Miguel! Eu vou morrer! Eu vou desmaiar, eu estou zonzo!” Realmente o treino acaba ficando puxado, mas ele estava exagerando um pouquinho.
“Deixa de ser mole e continua a série, faltam apenas seis dias para o campeonato e você não pode estragar tudo agora!”
Eu já previa que a Quarta-Feira seria o dia mais difícil, era o terceiro dia onde o meu Pupilo não comeria nada de carboidratos, era o dia onde ele ficaria na pior condição física e mental. A falta extrema de carbo aliada à carga extenuante de exercícios pode fazer com que um atleta normal quase enlouqueça, imagina o que isso fará com um atleta como o Leo. Nesse dia, eu esperava o Leo para treinar as 16:00 hs. Como de costume, eu cheguei mais cedo e ele chegou atrasado. Foi impossível não notar a chegada dele à academia. Eram quatro horas da tarde, uns 32º de temperatura e ele me chega de calça e blusa de moletom.
“Leo, você está doente? Louco, ou coisa assim?”
“Não Miguel, não estou. Só que você me ferrou. Suas preciosas dicas me deixaram todo fino, perdi uns três quilos, estou liso e pequeno. Já vou avisando, vou comer carbo hoje a noite viu!”
“Leo, você vai ter que confiar em mim, é normal seu peso oscilar assim, você acabou com a reserva de glicogênio em seu corpo, isso é proposital, agora vamos fazer o carb-up e tudo vai ficar melhor que antes. Fica frio.”
“Ah Miguel, eu estava pensando esta manhã. Não sei se estou satisfeito com o seu plano e sua orientação. Olha como estou pequeno, olha como perdi massa! Você e seus treinos dietas acabaram com meu físico! Se não fosse a minha genética eu estaria bem menor do que isso.” Eu não acreditava que estava ouvindo aquilo. Minha primeira reação foi a de socar a cara dele. Mas isso iria deixar marcas e ele poderia se machucar ao cair no chão. E ele iria ao campeonato, nem que eu tivesse que carregar ele até lá amarrado. O nosso herói é um cara jovem, muito novo ainda, é claro que iria aparecer uma certa insegurança, eu entenderia. Mas essa reação foi demais. Depois de todo esse trabalho, só faltava esse cara desistir de tudo na última semana.
“Leo, nós conversamos sobre tudo isso há algumas semanas, você sabia que perderia muita massa para conseguir chegar em uma condição de competição. Foi você quem insistiu que queria competir. Por favor, cresça, vire homem e assuma seus erros.”
O clima ficou pesado. O Ricardo, dono da academia, percebeu a discussão e veio acalmar os ânimos. Ele é um cara calmo, chegou ali, mudou o assunto e falou que iria treinar com Leo. Ele faria o mesmo treino que passara nos dias anteriores, e só fez aquilo para que eu saísse de perto do Leonel e deixasse nossos ânimos esfriarem.
Eu saí, fui embora. Naquela noite o Ricardo me ligou e contou o teor da conversa que teve com o Leo antes de começarem o treino. Ele me disse que falou assim: “Escuta aqui moleque, você nem pensa em desistir deste campeonato. E também nem pensa em culpar o Miguel por você estar pequeno, ou por você não estar da maneira que queria. Foi você quem insistiu em ir ao campeonato e o cara te ajudou da melhor forma possível. Ele conseguiu obter um resultado com você que nem eu imaginava. Então vai treinar, faça o que ele manda e fica quieto, senão eu vou arrebentar sua boca entendeu?” O Ricardo sempre foi um cara calmo acima de tudo, mas também é uma pessoa totalmente leal aos amigos, tão leal que acabou sendo “meio agressivo” com o Leonel.
Tudo correu normalmente nos dias seguintes, o carbo foi recolocado na dieta, os estoques de glicogênio subiram e o Leo ficou um pouco melhor. O grande dia havia chegado, o campeonato estava chegando. Apenas algumas horas mais tarde, Leo teria realizado seu sonho e se tornado um culturista de verdade, competidor. Chegamos ao teatro onde seria realizado o evento e esperamos o congresso técnico terminar. A categoria Junior seria a segunda a se apresentar, por isso já fomos direto para a sala de aquecimento. Eu e o Ricardo começamos a passar o creme que daria mais cor ao nosso branco pupilo. Por sorte trouxemos alguns elásticos na mala, pois a organização não havia disponibilizado pesos na sala de aquecimento.
Ao nosso lado pude perceber mais três meninos que competiriam na categoria Junior. Teríamos então quatro atletas disputando o título da categoria. Um deles tinha um metro e meio e pesava uns 50Kgs, estava liso, sem definição e não tinha volume, com certeza seria o quarto colocado. O Leo não ficaria em último. Os outros dois seriam osso duro de roer.
Lá estava o Leo, de sunga, pintado e com óleo, já aquecido e só esperando o momento de entrar no palco.Um dos organizadores do evento veio até a sala de aquecimento e gritou: ” Categoria Junior vir ao palco!” O show ia começar….
