Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.
Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.
A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens é real, exceto Leo.
Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos é caricata e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.com.br
Gostaria de agradecer o grande número de e-mails que recebi a respeito da saga Leo. A aprovação do público foi instantânea e provavelmente a série terá a duração prevista inicialmente de dez episódios. Algumas pessoas que treinam na mesma academia que eu, vieram me perguntar se o Leo realmente existia e quem ele era. Infelizmente o Leo não existe, é fruto de uma mistura de várias pessoas que conheci e fatos que ouvi ao longo de minha vida na academia. O nome da personagem é Leonel, por isso o apelido Leo. A grande maioria dos outros personagens é real, mas seus nomes foram mudados e nem todos os seus atos correspondem as suas ações de verdade. Nenhum dos fatos narrados aqui ocorreu de verdade. Gostaria de reforçar que esta é uma história fictícia e que não deve ser considerada como fonte de informações para nenhum tipo de pessoa.
Episódio X – O DIA “D”
Os quatro competidores já estavam no palco esperando as chamadas dos juizes. Tínhamos o anãozinho, o Leo e mais dois outros caras que estavam bem. O que eu via ali não me agradava em nada. Demos um azar bem grande, pois os dois meninos ao lado do Leo iriam trucidá-lo.
Primeiramente os juizes pediram para que todos os competidores viessem à frente e logo em seguida as poses compulsórias foram pedidas. Primeiro as relaxadas, de frente, de lados e de costas. Já nas poses relaxados pude perceber a tamanha diferença de desenvolvimento apresentada pelos dois caras que iriam ficar em segundo e terceiro. O menininho anão o qual eu achava que iria ser último fácil se mostrou um excelente posador e estava muito bem sob as luzes do palco. O Leo definitivamente estava brigando para não ficar em último lugar.
As poses de frente seriam chamadas a seguir. “Duplo bíceps de frente” Chamava o narrador. Expansão de dorsais de frente, abdominais e coxas. De lado, peitoral de lado, tríceps de lado. Na hora em que os árbitros chamaram as poses de costas eu quase caí da cadeira. O baixinho que eu achava que seria o último era dono das melhores costas da categoria. O Ricardo, dono da academia estava ao meu lado assistindo e não conseguiu segurar uma expressão de espanto: “Put%#$#. Acho que o Leo se ferrou.” Se ferrou não foi a expressão utilizada por ele, mas preferi trocar por esta para deixar as coisas mais limpas.
Enquanto todos os competidores se apresentavam com confiança e firmeza, segurando as poses para o publico, nosso Pupilo parecia derrotado no palco. Sua atitude era de um perdedor, não erguia a cabeça, não sorria, não fazia as poses com firmeza. Ele mesmo estava se declarando indigno aos juizes. Fiquei puto da vida com isso e comecei a berrar para ele dando indicações de como ajustar as poses. O Ricardo me ajudou muito nisso, gritando para ele erguer a cabeça e virar homem.

A numeração dos atletas era feita de acordo com a classe. O anãozinho de 50 kgs era o numero 11, o Leo era numero 12, o outro gigante, com pernas enormes, totalmente rasgadas era o numero 13. O último dos competidores era o mais completo em minha opinião, tinha a parte superior do corpo muito bem desenvolvida, as pernas não eram tão grandes mas ainda sim estavam na harmonia. Ele era o numero 14.
Durante as poses de frente os caras 13 e 14 estavam muito bem parelhos. O Leo perdia claramente para eles mas pelo menos era maior que o numero 11, o anãozinho.
Logo após todas as poses serem feitas, os juizes trocaram o Leo de lugar com o numero 11. Ele ficou longe dos outros dois, em minha opinião favoritos. Isso poderia demonstrar que os juizes não estavam tão certos assim de que o numero iria ficar em último.
Durante a segunda bateria de poses, podíamos perceber o cansaço estampado no rosto dos competidores. O Leo era o que demonstrava isso em menor grau. Graças aos treinos em séries gigantes, ele conseguira uma boa endurance, o que lhe permitia fazer as poses com mais facilidade. A medida que íamos o encorajando, a sua autoconfiança ia aumentando, assim como sua presença de palco. Ele estava mais agressivo, posava com mais vigor, mais confiança. Talvez nem tudo estivesse perdido.
Só quem já competiu em um campeonato de culturismo sabe das dificuldades. Meses de dieta; a última semana então, ah meu amigo, é um horror. Durante o campeonato o cara está desidratado, sem água nenhuma praticamente, tem que fazer uma força do cão durante as poses e ainda sorrir. Uma outra situação que muitos não param para ponderar é o fato de quando se vai competir, você estará vestindo apenas uma sunga bem pequena na frente de dezenas, centenas de pessoas as vezes. Se junta a desidratação ao calor tropical e ao calor gerado pela iluminação do palco, a vida do competidor vira um inferno.
As previas acabaram e os atletas da classe do meu Pupilo saem do palco. Imediatamente me dirijo a área reservada aos atletas para ver como o Leo estava.
Ao chegar lá eu esperava encontrar um cara emocionado, contente pela sua estréia nos palcos, aliviado por ter a tensão da estréia tirada de suas costas. Agora seria só esperar mais algumas horas e ver como tudo iria acabar.
Para meu espanto chego no backstage e vejo o Leo sentado num canto, cabeça baixa e só de sunga ainda. Fui me aproximar e dar umas palavras de encorajamento. “Fala Leozão, foi bem para a estréia Cara…”
Na mesma hora ele olhou para cima, pois estava sentado no chão ainda e me disse com uma voz rouca e tremula. “Miguel, você me ferrou. Seus treinos acabaram com meu físico. Você viu os dois caras?”
“Vi sim, eles devem ficar em primeiro e segundo.” A essa hora eu já estava com medo de responder para ele.
“Se a dieta que você me passou fosse boa, eu tinha que estar do tamanho dos caras, mas não! Você foi me passar aqueles treinos idiotas e agora eu estou aqui, bem menor que os outros.”
“Leo, não seja infantil. Não seja criança. Você sabe que a situação não é bem essa. Você sabia desde o inicio que a dieta teria que ser dura para você chegar na condição desejada a tempo. Lembre-se bem de que eu sugeri que não competisse nesse campeonato.” Esse menino me irrita as vezes. Muito infantil em algumas situações e ainda vem querer jogar a culpa me mim.
“É Miguel, mas deste tamanho eu não tenho certeza se vou conseguir ganhar.” O cara estava iludido mesmo. Na hora em que ele disse as cenas dele na academia se admirando e dizendo para si mesmo que era o melhor vinham a minha cabeça. É muito comum em culturistas, esse ego avantajado. Eles pensam que são os melhores, que são a melhor coisa que Deus colocou no mundo. Não é bem assim.
“Bem Leo, vou indo lá para fora. Vista-se e nos encontre lá. Vamos assistir ao resto das previas e depois comer alguma coisa.” Procurei nem ficar lá por muito tempo, pois sabia que ele estava chateado e ainda iludido achando que iria conseguir uma boa colocação. Mal sabia ele que iria brigar para não ficar em último.
Quando um cara vai competir, quando ele sobe em um palco, tudo o que ele fez durante a sua preparação vai contar. Todo o aeróbio não feito, todo o lixo que ele comeu sem poder, todo o treino que ele deixou faltando vão se voltar contra ele. Depois de tudo, fica fácil colocar a culpa em alguém. Muitos culpam os juizes, os chamam de corruptos; outros culpam a comida estragada que comeram um dia antes. Outros, bem poucos, culpam seus treinadores. É fácil tirar a responsabilidade dos ombros e jogar em cima de alguém. Infelizmente, no palco é apenas você contra todo mundo. Se você não fez o dever de casa corretamente, dificilmente irá passar pelo olhar critico e treinado dos juizes.
Gostaria que o meu Pupilo, o Leo tivesse lido esse parágrafo três meses atrás. As coisas talvez fossem bem diferentes hoje.
Logo após as prévias, que ocorrem a tarde, os atletas descansam e tentam relaxar para o show da noite. O show da noite vale poucos pontos e influencia pouco na escolha das colocações pelos árbitros. Mas ainda sim é preciso segurar a condição física por mais algum tempo até que o show termine.
“Miguel, eu vou comer um lanche ali naquele shopping.” Era claro que o Leo estava desanimado, cansado e com fome. Mas naquele momento era preciso segurar as rédeas para que ele não pusesse tudo a perder.
“Leo, come aí seu arrozinho e fica sossegado. Logo após a premiação da sua classe já vai ter uma pizza te esperando atrás do palco. Aí você vai poder comer a vontade.” Havia uma pizzaria no shopping perto do local onde o campeonato estava sendo realizado. Iria pedir para alguém ir lá comprar uma pizza para o Leo, pois depois de tanto esforço ele merecia.
A hora da verdade, o Show da Noite chega e lá vamos eu o nosso herói (a essa hora já não sei se é tão herói assim) para a sala de aquecimento outra vez. Demos uma retocada na coloração e aplicamos uma camada fina de óleo. Muita gente não tem consciência da importância que a coloração da pele tem na hora do julgamento. Se um atleta entra branco demais, perde muitos pontos, se entre muito escuro, os juizes não conseguem ver muitos detalhes. Existem produtos especiais para se colorir, mas é importante ter um bronzeado natural como base antes de aplicar a tintura. Mesmo os atletas negros deveriam se bronzear para competir, pois isso evita aquele visual desbotado no coloração em cima dos palcos.
A medida que a hora de entrar chegava, Leo ficava mais agitado. “Será que eu vou ganhar? Ou vou ficar em segundo?” Nem respondi, fiz que não ouvi nada.
Os meninos sobem ao palco e, um por um, fazem sua coreografia. A do Leo foi uma das melhores, já que fiz ele treina-la exaustivamente. Ele ainda precisa aprender a ter mais controle na hora das poses, mas foi muito bem. Talvez isso o ajude na hora da decisão.
Para meu desespero o atleta numero 11, o anãozinho com quem meu pupilo iria brigar pela terceira colocação se apresenta de forma surpreendente. Se houvesse uma premiação para a melhor coreografia, esse cara ganharia fácil. Agora sim as coisas estavam difíceis para nós.
Após todos os quatro se apresentarem individualmente, foi a hora do posedown, onde os atletas se degladiam fazendo poses livres para a platéia. Nessa altura Leo estava morrendo de cansaço e mal conseguia fazer as poses. Só nos restava esperar a decisão dos juizes.
O locutor do evento entra no palco e começa a falar: “Agora vamos a premiação da classe Junior do Campeonato. O quarto lugar ficou com o atleta de numero 11!”
O baixinho ficou meio chateado mas foi lá e buscou sua medalha de honra. Leo deu um sorrisinho confiante. O locutor anuncia o terceiro colocado: “Ocupando a terceira colocação, ficando com a medalha de bronze, anuncio o atleta numero 12!”
O numero 12 era o Leo, na hora em que ouviu seu numero ele fez uma expressão de susto e indignação. Fixou o olhar para o chão e ficou lá.
“O atleta premiado pode vir a frente buscar a medalha e o troféu.” E o Leo continuava com o olhar fixo no chão, sem se mexer.
“Atleta numero 12, por favor venha a frente buscar seu premio.” Nesse momento o Leo vira as costas e sai do palco sem pegar seu premio nem falar nada. Eu não acredito que ele fez isso! Saí correndo até o backstage para falar com ele.
“Você está louco moleque? Quer me matar de vergonha? Volta lá agora, pede desculpas e pega seu troféu de terceiro lugar.”
“Você sabe que eu não merecia ficar em terceiro, eu era pelo menos o segundo melhor> Esses caras me roubaram!”
“O que?” Cai na real Leo, o terceiro já foi um presente. Nesse momento ele saiu, se vestiu e foi embora! Pegou seu carro e simplesmente foi embora, deixando os dois que vieram de carona com ele para trás. Só faltava ele se matar agora.
A atitude extremamente infantil e anti-desportiva do meu pupilo me deixou perplexo.
Na Segunda-Feira seguinte, ainda sem ter falado com ele após o ocorrido, vou até a academia para treinar. Encontro o Leo todo vestido, com calça comprida e uma blusa de moletom. “Você está doido? Estamos pleno verão, 35º C de temperatura e você vestido assim?”
“Estou assim porque meu físico me deixa envergonhado! Você me fez sentir vergonha de mim mesmo. Nunca deveria ter ouvido seus conselhos, nunca deveria ter aceitado ser treinado por você para um campeonato. Você me arruinou e fica frio pois nunca mais vou nem sequer falar sobre musculação com você.”
“Leo, para de falar besteira. Foi você quem veio até pedindo ajuda. Te ajudei a alcançar uma forma física que nunca imaginou que pudesse. Foi você quem escolheu participar deste maldito campeonato, não eu. Então por favor fica quieto porque já estou de saco cheio de sua infantilidade.”
“Infantil e idiota é você Mig….” Pow!!!
Eu estava tão nervoso com ele e com a situação que na mesma hora que ele me chamou de idiota eu nem esperei ele terminar a frase. Dei-lhe um soco no meio da boca. Ele caiu para trás, quase bate a cabeça em um banco.
Ele se sentou no chão e ficou com a mão boca, toda cortada, sem saber o que tinha acontecido. Nessa mesma hora o Ricardo, dono da academia veio até mim. Já pensei na hora que ele iria chamar a minha atenção e me expulsar de sua academia, pois ele é um cara totalmente calmo, centrado e apesar de ele já ter sido um ótimo competidor de Jiu-Jitsu e treinador de vale-tudo, nunca ouvi dizer que ele havia brigado com alguém.
Ele chegou perto e me disse: ” Miguel! Você já pensou em lutar boxe ou vale-tudo? Belo soco! Ele merecia apanhar mais, mas acho que já deve ter aprendido a lição.”
Fiquei espantado, mas contente. Minha mão doía muito. Eu tinha um pequeno corte no dedo. Achei melhor nem treinar. Na saída, o novo recepcionista Andrey me chamou. “Miguel, tem dois caras querendo falar com você ali.”
Olhei para a sala de espera. Era o Teles, filho do dono do restaurante e um amigo dele; um cara enorme, ombros largos, braços que deveriam ter pelo menos uns 47 cm a te as pernas pareciam ser bem desenvolvidas. Me aproximei deles e o Teles me apresentou: “Miguel, este aqui é o Gustavo Badel. Chamo ele assim pois ele é fã numero 1 do Badel.”
“Muito prazer Gustavo.” Apertei a mão do cara sorrindo.
“Eu odeio o Badel e meu nome verdadeiro não é Gustavo. Mas como todo mundo já me chama assim, pode me chamar também.”
O Teles estava todo feliz, sorridente. Perguntei o porquê da alegria. Ele respondeu que era pelo soco na cara do Leo.
“Teles, não me orgulho do que fiz, mas já está feito. Pelo menos agora eu não tenho mais ninguém para eu treinar e nem para me encher o saco.”
O Teles responde de imediato: ” Você está enganado. Agora você tem dois caras para treinar. Eu e o Gustavão.”
