Como se Tornar um Culturista – Episódio XII

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No outro dia, pela manhã, me levantei da cama já pensando no treino que faria com o Gustavo e o Teles.  Eu gosto de ir visualizando o treino, imaginando e calculando todos os movimentos, as cargas, as possíveis reações deles.  Me perguntava se aqueles dois realmente iriam cumprir os treinso, as regras. Sabia que Gustavo iria treinar bem e comer direito, mas temia que na hora H, na hora do campeonato, ele fosse sair pela tangente.

Minha maior preocupação mesmo era o Teles. Não tinha certeza se ele estava realmente pronto para fazer tudo o que deveria ser feito. Percebi que se ficasse pensando muito naquilo, eu não chegaria a lugar algum, muito menos teria tempo de tomar meu café da manhã.  Fui para a cozinha preparar a minha primeira refeição.

Como as manhãs são geralmente cheias de compromissos e a gente sempre acaba ficando aqueles cinco minutos a mais na cama, a minha primeira refeição do dia costuma ser um shake.  Mas não se iludam pensando que este é um shake normal. É uma refeição bem reforçada.

O café da manhã é a primeira refeição do dia e uma das mais importantes.  Todos sabemos da importancia de realizarmos pelo menso seis refeições, distribuidas de maneira uniforme ao longo do dia. Para reforçar este hábito, costumamos exclamar que todas as refeições têm igual importancia e nenhuma deve ser menosprezada.  Sabemos que determinadas  refeições,   que pela sua posição na agenda diária, assumem papel fundamental na construção e recuperação muscular.  Essas são o café da manhã e a refeição logo após o treino.

Nesses dois momentos do dia, consumir uma boa quantidade de proteína ( qualquer que seja. Se for de absorção rápida, melhor ainda. ) é vital para suprir a demanda de nosso organismo altamente estressado nesses momentos.  Citamos esses horários pois logo ao acordar, percebemso que ficamos pelo menos 6 ou 7 horas sem ingerir nenhum tipo de alimento. Precisamos reestabelecer o fluxo de aminoácidos no sangue rapidamente.  Logo após ao treino, todos já devem estar cansados de saber, é preciso consumir proteína para amplificar e acelerar a recuperação muscular e sintese proteíca.

Bem, deixando a nutrição de lado e voltando à minha manhã, fui até a cozinha e preparei meu tradicional shake matinal.

250 ml água
50 grs whey chocolate
60 grs aveia
2 colheres de sopa de crème de amendoim sem áçucar
2 colheres de chá bem cheias de pó de café.

Junto tudo isso no liquidificador e bato tudo até que fique uma mistura homogênea. Para aqueles que estão se perguntando do café, é isso mesmo. Coloco pó de café no shake. O mesmo pó que usa com água fervente.

Com tudo pronto, fui para a academia me encontrar com os dois. No som do carro tocava ACDC – Thunderstruck com o volume bem alto.  Bom som para acordar e criar um “mindset” apropriado para um treino.

Este seria um treino memorável. A situação toda cria uma motivação enorme nos dois. E é bom treinar pessoas extremamente motivadas. Com certeza, por toda a situação que foi criada, eles devem estar se preparando para uma guerra nesta manhã.  Isto é bom, pois eles realmente teriam uma verdadeira guerra pela frente.

Já estávamos nos aproximando do meio do ano. Em nossa cidade, fundada no meio de algumas serras, com altitude elevada, o clima é bem frio nesta época.  Muitas vezes, o vento gelado da manhã corta a pele como uma navalha. Não adianta blusa, jaqueta, gorro nada. O vento passa através de tudo.

Desci do carro, em frente à academia e senti o vento gelado. As portas de vidro da entrada, que sempre ficam escancaradas para que todos entrem com facilidade, naquela manhã estavam fechadas. Pelo vidro trasparente das portas, podia ver os dois novos pupilos sentados na sala de espera, tentando se aquecer nos ainda fracos e escassos raios de sol do amanhecer.

Entrei na academia e saudei os dois com um bom dia. O Gustavo deu um sorriso e estendeu a mão para me cumprimentar. O Teles, que olhava fixamente para o lado de fora, só desviou levemente o olhar para a minha direção e acenou com a cabeça. O primeiro treino, primeiro teste iria começar. Pedi para que os dois fizessem um aquecimento leve na esteira, para fazer o sangue circular e aquecer um pouco seus corpos. Enquanto isso fui até a sala do Ricardo para ver se ele estava pronto para me ajudar caso fosse necessário.

“A máquina de choques está pronta e carregada.  Se quiser, a arma de paintball automática também está a postos. Você não achou que eu ia te diexar na mão, não é mesmo?”  Disse alegremente com sua voz naturalmente alta o dono da academia.

Era bem cedo ainda. O som que estava tocando na sala de musculação era uma seleção de hits dos anos setenta. Sabia que essa não era a trilha sonora adequada para uma sessão de treinos daquelas. Também sabia que se mudasse o som, os alunos regulares da academia não iriam achar muito bom. Mas, algo era precisava ser feito. Peguei um CD na bolsa e pedi que o Teles o colocasse no som. Dessa forma, se alguém fosse reclamar, reclamaria com ele.  O título do CD era “Som Treino III” , dentro dele, haviam 10 músicas que durariam exatos 45 minutos. Tempo suficiente para um ótimo treino de ombros. As músicas foram escolhidas a dedo para que induzissem os pupilos a um estado de atenção e agressividade aos pesos maior. Eram cinco músicas do ACDC e cinco do Iron.

Thunderstruck
Back in Black
HighWay to Hell
Hard as a Rock
Hells Bells
Run to the Hills
Fear of the Dark
The Phanton of the Opera
Number of the Beast
Hallowed by The Time

Com tudo pronto, começamos o aquecimento. Teles estava todo animado e fazia algumas brincadeiras e piadas. O Gustavão era “All Business” só estava interessado no treino.

“Então Miguel, qual vai ser o primeiro? Hoje estou muito disposto, tomei um ótimo café da manhã!”  Dizia Teles como peito estufado.

O treino iria começar com elevações laterais. Seriam três séries de dez ou doze repetições.  Teles começou. Eu o deixei escolher o peso. Ele foi e pegou um par de halteres de 14 kgs.

“Você está louco? Vai começar com 14 kgs? Vai conseguir fazer isso certo?

“Miguel, sempre usei este peso, é leve, você vai ver!” Sorriu Teles.

Antes de ele começar a série eu já imaginava como seria. Ele iria fazer tudo com uma forma de execução horrivel, levantando as mãos e deixando os cotovelos baixos e jogando o corpo para a frente e para trás.

Começa a série de Teles.  A essa altura eu já me sentia um vidente, visto que ele realmente estava fazendo tudo o que eu havia imaginado.  Após quatro repetições gritei:

“Para!!”  Se ele pensava que ia começar o treino com aquela forma horrível de execução, ele estava redondamente enganado.  Expliquei para os dois que treinar epsado não era simplesmente levantar os pesos. É preciso criar uma conexão entre a mente e o músculo. É vital sentir o músculo contraindo a cada repetição. Caso contrário todo esforço é em vão.

Peguei um par de halteres de 10 kgs e os dei ao Teles. “Vamos recomeçar a série.”

Fiquei posicionado atrás dele, e enquanto ele fazia o movimento, eu ia guiando as mãos dele para cima e para os lados do tronco. É muito comum, ao fazermos elevação lateral, levarmos as mãos à frente do tronco. Na verdade, para manter tensão total nos deltóides mediais, as mão devem estar sempre no mesmo plano do tronco.

A primeira série, mesmo com os problemas em acertar a posição correta, foi fácil tanto para o Teles quanto para o Gustavo.

Os dois também fizeram a segunda séria com relativa facilidade. A terceira e útlima seria a pior. Peguei o par de halteres de 14 kgs para o Teles.

“Mas Miguel, você disse que eu não deveria usar este peso, lembra?”

“Agora você aprendeu como se faz. Espero que faça pelo menos seis repetições sozinho.”  Já fui me posicionando atrás do Teles.  Ele fez três repetições muito bem feitas. As duas próximas já foram mais ou menos.  Ajudei a fazer mais duas. Fim da série. Teles senta no chão tentando encontrar o ar. O Gustavão já pega halteres de 18 kgs. Peço para que ele pegue os de 20 kgs.  Vamos fazer uma série curta. Sete repetições perfeitas.

O próximo exercício seria desenvolvimento com halteres. Apenas uma série com rest-pause e pronto. Pedi para o Teles ir arrumando o banco enquanto eu ia pegar os halteres. Peguei um par de 22 kgs para o Teles e um par de 30 kgs para o Gustavo.

Pedi para que ele se sentasse no banco e pegasse os halteres. “Pronto? Vamso começar a série. Concentre-se!”

Até a sexta repetição estava tudo bem. Na sétima ele começou a dar sinais de fadiga. Comecei a berrar:

“Vai Teles, firme.  Mais três!” Disse enfaticamente.

Teles completa mais três com muita dificuldade. “Mais uma, deixa de ser mole!” Com mais um berro direcionado bem na sua orelha, Teles reage e completa a última repetição. Onze por enquanto.

“Descanse dez segundos e vamos continuar a série” Marquei o tempo no relógio e dei o comando para que começasse. Enquanto observava Teles fazer apenas mais duas repetições, acenei com a cabeça e pedi para que o Gustavo me trouxesse um par de halteres de 16 kgs.

Teles solta os halteres. Peço que ele aguarde mais dez segundos e passo os halteres de 16 kgs nas mãos dele.

“Você quer me matar Miguel! Eu não consigo.”

“Eu diminui o peso nesta. Quero mais duas boas repetições.” Teles começa a parte negativa da primeira das duas repetições. A essa altura seus braços tremem e a experessão em seu rosto é de dor.

“Menos peso agora! Mostre algum esforço para mim!” Teles termina a segunda repetição e joga os pesos ao chão. Ao bater no tapete emborrachado, um dos halteres “pula” e quase bate no espelho.

A série do Gustavão foi tão árdua quanto à do Teles, com uma diferença. Ele é muito forte. Ele fez 16 repetições com 30 kgs,descansou 10 segundos, fez mais 4 repetiçoes, descansou mais dez segundos ( na verdade foram apenas 7 segundos, pois ele estava fazendo muitas repetições e eu queria dificultar as coisas para ele) e fez mais três repetições com uma execução impecável.

Fomos para o próximo exercício. Lembrem-se de que esta treino era um teste de fogo para os dois. Eu queria submetê-los a um stress altíssimo para saber como eles respondiam nessa situação.

Agora, pedi ao Teles que pegasse um par de halteres de 3 kgs. Ele olhou para mim e deu risada. Disse que finalmente iria fazer algo tranquilo naquele treino.

“Se você pensa que vai ser fácil, deve estar enganado. Se eu conheço um pouco do Miguel, quanto menos peso ele pede para você pegar, mais difícil será o exercício.” Disse o sorridente Gustavão, já se divertindo com a idéia de que o Teles iria se ferrar.

“Teles, pode se sentar no banco. Faça elevação lateral. “ Eu nem havia acabado de completar meu pensamento e o Teles já respondeu.

“Só três quilos?  Dá para fazer umas vinte com esse peso.”

Sorri alegremente e olhei para o Gustavo, parecia que ele já previa o que eu ia dizer.

“Isso mesmo Teles, só que agora, a série é de 40 repetições. Sem jogar o peso, sem fazer rápido. Quero tudo controlado.”

Teles fechou a cara e olhou para a frente, como quem encara o desafio. Ele começou a fazer a série, após a vigésima ele já se contorcia de dor e desepero.

“Vinte e cinco! Deixa eu parar por favor!” Implorava meu novo pupilo.

Só faltavam mais quinze. Então resolvi dar um apoio moral a ele.  “Deixa de ser Mocinha e ergue esse peso! Só mais quinze! E contrai esse ombro.”

A medida que Teles prosseguia na série, o suor escorria pelo seu rosto já desfigurado de dor. As três últimas repetições foram jogadas, mas tudo bem. A série valeu.

Logo após a o Gustavo completar a sua série já ordenei que Teles se posicionasse.

“Mais uma série de quarenta repetições?”

“Não! Agora são cinquenta!”

Nesse momento o Ricardo chega ao nosso lado, com a máquina de choques carregada e começa a apertar o gatilho. O barulho das faíscas liberadas pela máquina já abala o psicológico de muita gente.

“Comece a série!” Disse com a voz bem alta. O Gustavo começou a se animar e gritou: “Vamos Teles!”

O pessoal da academia percebeu a movimentação perto do Teles e uma roda se formou em volta dele para ver o que ia acontecer.

Após a vigésima quinta repetição, ele já estava quase chorando. Um berro de dor e de alívio sinalizava cada repetição.  Na trigésima ele parou. Balançou a cabeça negativamente e disse que não ia dar.  Imediatamente acertei um tapa na nuca e gritei:  “Termine a série!”

Começamos a contar junto com ele.  Um coro de vozes o incentivando.

“Trinta  e três, trinta e quatro, trinta e cinco…”

Ajudei levemente nas três últimas repetições. Ao ouvir as vozes dizendo cinquenta ele soltou os pesos no chão e deitou para trás no banco.  Ele estava pálido. Se levantoum tentou levar as mãos ao rosto. O esforço era inútil. Ele não tinha mais forças.

De repente ele saiu andando rapidamente para o banheiro. Pedi para que o Gustavão fizesse a série dele e fui atrás do Teles.

Quando cheguei ao banheiro ele estava vomitando na privada, deitado no chão. Quando ele terminou, o ajudei a se levantar e a lavar o rosto.  Ele se sentou no chão e disse que não ia voltar.

Olhei pela porta, vi o Gustavão fazendo a sua série, o cara é uma  máquina, parece que nada poderia pará-lo. Voltei minha atenção ao Teles.

“Então você não vai continuar o treino. Beleza. Já vi como serão as coisas.”

“Miguel, você sabe que quase ninguém conseguiria fazer este treino até o final. Tem que me dar uma chance.”

“Eu sei que quase ninguém conseguiria terminar. Só algumas poucas pessoas com a alama de guerreiro e a vontade necessária.  Estou vendo que o Gustavo vai continuar.  E esperava que você também continuasse.”

Depois disso, me levantei, virei as costas me dirigindo para a porta de saída do banheiro e disse:

“Essa atitude eu só esperava do Leo, não de você. Se quiser continuar treinando sob meus cuidados e ter minha ajuda, se levante agora e saia daí. Caso contrário, esquece.”

Saí do banheiro, perguntei ao Gustava se estava tudo bem e olhei para trás. Olhei para a porta do banheiro. Enquanto me virava, torcia para que Teles estivesse ali fora, de pé.”

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