Na Quarta-Feira, 17 de Setembro de 2008, acordamos bem cedo – mais ou menos quatro da manhã. As malas já estavam prontas, mas precisávamos tomar um café reforçado no hotel, dirigir 50 km até o aeroporto, devolver o carro e embarcar no avião para Los Angeles. Seriam mais três ou quatro horas de vôo. Enquanto esperávamos, junto ao portão de embarque, podíamos ver alguns típicos Businessmen texanos vestindo belos ternos, botas e chapéus de vaqueiro. A TV começava a mostrar as primeiras consequencias da crise mundial.
Mais um vôo tranquilo, sem qualquer problema. A segurança no aeroporto era imensa, com agentes por todos os lados e uma dura fiscalização. Pousamos em Los Angeles, no aeroporto internacional LAX. Mais um aeroporto enorme. Mais uma vez, pegamos as malas e fomos procurar a locadora de carros. Um microonibus nos levou até lá. Arlington é uma cidade grande, mas não muito. O Texas tem um clima de interior, as pessoas são mais simpáticas, atenciosas. Em Los Angeles tudo é diferente. O contraste entre o Texas interiorano e uma das maiores e mais importantes cidades do mundo é bem grande. O simples ato de conseguir algumas informaçoes de localização era dificil.
Chegamos à locadora, pegamos nosso carro com tanque cheio, GPS e fomos embora diretamente para Venice. Tinhamos muita coisa à fazer pouco tempo. Passava um pouco da hora do almoço, Estávamos há uns 40 km de Venice. Decidimos almoçar por lá mesmo, no FireHouse Cafe.
Mesmo com o trafego pesado, conseguimos sair rapidamente de Los Angeles e rumar para a vizinha Venice. Pouco tempo depois, o GPS indicava que estávamos há apenas 300 metros da academia. Eu já podia avistar a fachada do prédio. Lá estava escrito “The Mecca of Bodybuilding”. Mais uma vez, a tremedeira nas pernas começava. Bem na minha frente estava a academia mais importante da história. Nos anos 70, 80 e início dos 90, se você quisesse ter sucesso no bodybuilding, era praticamente obrigado a mudar para Venice e treinar na Gold’s Gym.
Paramos o carro no estacionamento dos fundos e fomos até lá. Antes de entrar parei bem na frente. Olhei para o prédio tentando me certificar que não estava sonhando. Era mesmo verdade. Lá estava a Gold’s Gym, Meca da musculação mundial. Local onde centenas de campeões foramconstruídos. Vários pensamentos vieram à minha cabeça. Como seria treinar lá? Como se comporta o pessoal de lá? Quem será que eu iria ver ali? Até agora eu havia encontrado Brian Dobson, dono da Metroflex e perdido a chance de encontrar Branch Warren por uma questão de minutos. Não havia visto nenhum profissional ainda. Nesse momento, no meio deste turbilhão de pensamentos, vejo Bob Cicherillo conversando com um colega na porta da academia. Ia até lá conversar um pouco com ele, mas percebi que ele iria treinar. Não quis incomodá-lo.
Ao entrar pela porta senti imediatamente o espirito do culturismo. Olhei rapidamente ao redor e imaginei todos os atletas, todas as histórias que eu havia lido. Pensei em Arnold, Franco, Zane, Ed Connors, Dave Drapper, Mike Quin, os Barbarian Brothers, Samir Bannout, Cris Dickerson, Tom Platz, Flex Wheeler, Shawn Ray, Chris Cormier, e todos aqueles homens e mulheres que viveram suas vidas dedicadas ao culturismo e que passaram anos treinando ali, naquele mesmo chão que eu estava pisando. O folclore baseado nas histórias de Venice é riquissimo, não é dificil encontrar livros ou histórias na internet sobre as peripécias de Arnold e sua turma, as trapalhadas dos Barbarians Brothers e as disputas épicas entre Chris Cormier e Flex Wheeler, quando eles treinavam juntos.
Logo na entrada da academia fica uma lojinha com roupas e alguns suplementos. A variedade de roupas é enorme, calças, bermudas, camisetas, moletons, jaquetas bonés. Se você usa tamanho “P” ou “M” não vai encontrar nada que te sirva. Tudo lá é grande. O tamanho menor é o “G”, seguido de XG, XXG, XXXG e até o espantoso XXXXG! A menos que seu nome seja Ronie Coleman ou Jay Cutler, você vai ficar ridiculo em uma camiseta tamanho XXXXG.
Nesse recinto podemos encontrar uma geladeira cheia de shakes proteicos Ready to Drink e algumas barrinhas de proteína ao lado. Perto dali, um forno microondas para uso dos alunos e treinadores que não podem perder a hora das refeições. Como vemos, tudo lá é feito para facilitar a vida de quem treina sério.
Bem do lado da lojinha, temos o balcão de atendimento e uma pequena cerquinha que separa a sala de entrada do restante da academia. Enquanto eu falava com o atendente, podia avistar Bob Cicherillo e seu amigo em um canto, Charles Glass e Silvio Samuel em outro, todos treinando. Um pouco al lado também pude ver o IFBB Pro libanês/alemão Aiman Faour. Pedi para entrar na academia para conhecer o local.
A academia é simplesmente enorme. Tem tantas máquinas que praticamente é impossivel ver a parede do outro lado da sala. A academia se divide em três grandes salas. A primeira sala tem muitas máquinas, mas também é onde se encontram os maiores halteres e mais peso livre. Nessa primeira sala temos os quadros ilustrando todos os vencedores do Mr Olympia, Ms Olympia, Masters Olympia e NPC Nationals.
Aos poucos, a Gold’s foi atraindo muitas pessoas fora da cena do culturismo, pessoas que apenas queriam treinar sério e obter resultados. A Gold’s não é simplesmente mais uma academia. Ela é um centro de fitness e treinamento capaz de atender desde competidores de culturismo profissional, atletas de ponta da NFL e NBA até artistas de Hollywood.
Pessoas que vivem em cidades litorâneas geralmente acabam expondo mais o corpo. Isso cria uma preocupação maior com o físico. Em Venice, Los Angeles e outras cidades vizinhas isso não é diferente. É impressionante o número de pessoas com um fisico excelente que podemos ver na Gold’s. Claro que temos um ou outro mais gordinho. Mas em geral, todos que treinam lá estão muito bem. Sejam homens ou mulheres, praticamente todos têm um volume muscular considerável e uma boa definição. É raríssimo ver alguém com o fisico que se enquadra no “Off Pesadão”.
Comentei essa impressão que tive com o treinador Charles Glass. Ele concordou e disse que todos lá pensam e agem como bodybuilders. Muitos podem nem competir, mas nem por isso se consideram menos bodybuilders. Ele ainda ressaltou isso com palavras mais ou menos assim: Se você se considera um culturista, é sua obrigação se manter em uma condição razoável o ano todo. Não precisa se manter em condição de competição como ele faz ( aponta para o Silvio Samuel, que estava há alguns metros tomando um shake). Silvio tem uma genética superior que o permite isso. Mas para nós, mortais, ficar em uma condição razoável, com abdomem aparecendo e veias nos braços é perfeitamente possível desde que se tenha dedicação.
Falando em dedicação e treinamento, Charles Glass é praticamente parte da Gold’s. O simpático rastafari, IFBB Pro e competidor nos anos 80, se tornou simplesmente o maior e melhor treinador de bodybuilding do mundo. Charles é formado em engenharia mas sua paixão pelo culturismo supera tudo. Profundo conhecedor de biomecânica, Charles usa as máquinas, bancos e barras a seu favor ( e de seus clientes) na hora de construir os melhores físicos do planeta.
Glass não é um simples treinador que pega um cara normal e o transforma em gigante deformado. Ele é capaz de pegar um fisíco de ponta, praticamente sem falhas e torná-lo ainda melhor. Se você pega um carro mal cuidado, sujo por dentro e por fora, com pneus carecas, vidros quebrados, pintura riscada etc é muito fácil deixá-lo mais bonito. Com pouco esforço e um pouco de dinheiro você transforma seu carro velho e mal cuidado em um novo. Agora é muito mais complicado pegar uma Ferrari zero Km completa e tentar modificá-la para melhorar sua aparencia e performance.
É isso que Charles Glass faz – ele melhora o que já é ótimo, faz o impossivel. A lista de clientes famosos de Charles é extensa – Chris Cormier, Flex Wheeler, Dennis James, Gunter, Troy Alves e Silvio Samuel são alguns deles.
Além dos bodybuilders, Charles tem uma legião de clientes que simplesmente querem obter o melhor fisico através do treinamento e sabem que somente com ótima t;ecnica no treino conseguirão seus objetivos. Por isso Charles trabalha tanto. Ele chega na Gold’s as quatro ou cinco da manhã e não sai de lá antes das sete ou oito da noite.
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