DC USA TOUR 2008 – Metroflex Gym Parte 3

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Treinando em Território Sagrado

O primeiro treino nos EUA. Primeiro treino na Metroflex. Como seria? Isso vinha me perseguindo há alguns meses. Lá estava eu, quase 14 horas de aeroporto, seis horas vagando pela cidade e conversando na academia. Uma noite praticamente sem sono, última refeição decente havia sido há 30 horas. Quem treinaria sob esse cenário? Não seria possível. Mas eu estava em Arlington, na Metroflex Gym, tinha pouco tempo por lá. É claro que eu treinar, mesmo que desmaiasse no meio do treino eu ia treinar.

O engraçado é que mesmo com essa situação de esgotamento físico, eu parecia novo e queria muito treinar. O ambiente, o som, a academia realmente hipnotizam e te fazem treinar. Mantendo as proporções, isso me lembrou quando estive em Londrina, alguns anos atrás, para treinar na IronWorks. Academia que era do Waldemar Guimarães na época. Eu me lembro que fiquei lá por alguns dias. Passava o dia todo na academia, observando a tudo e a todos. Alguma coisa naquela academia me fazia querer treinar o tempo todo. A qualquer hora, eu queria treinar.

Esse é o tipo de ambiente criado por essas academias únicas, alguma coisa no ar te deixa motivado 100% do tempo. Naquele dia o calor estava especialmente alto, o tempo seco. A academia não estava lotada, então me troquei e fui treinar.

Meu primeiro treino por lá foi ombros e tríceps. Comecei com um aquecimento leve, usei o menor par de halteres e fiz algumas séries de elevação e elevação frontal. Comecei o meu treino como de costume. Sempre priorizo a cabeça medial dos deltóides pois é principalmente ela que confere aquele aspecto arredondado aos ombros.

O primeiro exercício foi elevação lateral. Fiz três séries deste exercício, sentado e com 100% de perfeição na forma de execução. A primeira série foi realizada com 20 libras (9kgs) para 12 repetições bem feitas e bem lentas. Usei a mesma carga na segunda e terceira séries, tendo feito 10 reps em cada uma.

O segundo exercício foi um clássico. Desenvolvimento com barra. Quem não se lembra de Coleman fazendo este mesmo exercício em seu vídeo “The Unbelievable”? Claro que usei cargas ridiculamente menores que as dele. Sentei no banco, peguei a barra, sem anilhas ainda, e comecei uma série de aquecimento, só para regular os ajustes do banco e suporte. Nesse instante, enquanto eu realizava aquelas fáceis repetições, visualizava Branch Warren e Coleman fazendo este mesmo exercício, neste mesmo banco , com esta mesma barra.
Não sou muito forte em ombros, na verdade não sou muito forte em nada. Depois que realmente estreitei os laços da relação entre mente e músculos, parei de abusar dos pesos. Na verdade, a questão intrínseca é que precisamos contrair os músculos, e não levantar o peso. O peso é apenas um meio para se chegar ao final – estimular a musculatura. É claro que aquela busca primitiva, quase inconsciente de tentar levantar as maiores cargas possíveis ainda está embutida em minha mente; mas agora entendo o verdadeiro sentido de “maior carga possível.”
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Com isso em mente, pensei começar o exercício usando a barra de 45 libras ( aprox 20 kgs) mais uma anilha de 25 libras de cada lado, que totalizariam mais ou menos 45 kgs. Para a primeira série estava bom. Depois eu iria aumentando o peso até chegar ao total de 60 kgs. Acreditem, é o suficiente se a forma de execução e qualidade de contração forem perfeitas.

Procurando as anilhas de 25 libras me dei conta de uma outra característica da Metroflex. Não existem anilhas pequenas por lá. Só temos as anilhas de 45 libras (aquelas grandonas que vemos nos vídeos e fotos) e algumas poucas de 35 libras (15 kgs). As anilhas menores provavelmente estão escondidas no meio do entulho de maquinas velhas no canto perto do banheiro.

Comecei a primeira série coma barra e uma anilha de 35 libras de cada lado, totalizando uns 50 kgs no total. Foram 12 reps perfeitas, descendo bem a barra. Na série seguinte, resolvi manter a carga. Só iria aumentar o peso na última. Consegui apenas 8 reps com muita dificuldade. O calor era imenso, o ar seco, a academia abafada. Resolvi dar um intervalo de descanso um pouco maior que o comum. A carga não foi aumentada. Na terceira série, fechei os olhos e visualizei mais uma vez os monstros Branch e Ronnie na tentativa de reunir forças para uma boa série. Consegui 7 repetições e quase desmaiei.

Era hora de partir para o terceiro exercício – a remada alta com pegada aberta. Realizo este exercício com a pegada bem aberta para focar a contração dos deltóides e não do trapézio. Utilizei a mesma barra com a qual havia feito o desenvolvimento. Foram três séries de 12 , 10 e 10 reps. A essa altura, o cansaço, calor absurdo e falta de alimentação adequada estavam começando a pesar. Mas nada ia me tirar dali até que eu terminasse meu treino. De jeito nenhum.

Precisava fazer alguma coisa para a parte posterior dos ombros. Crucifixo inverso com halteres estava fora de questão. As circunstancias pediam uma maquina, onde eu pudesse ficar apoiado e só me preocupar em contrair os deltóides. Andei pela academia e encontrei um PEC-deck. Ele estava ajustado na posição de crucifixo para peitoral. Eu precisava ajustá-lo para a posição de crucifixo inverso. Enquanto olhava para a maquina com uma expressão de duvida, pensava como iria fazer o ajuste. Será que eu teria que soltar alguma trava e girar os braços até que se posicionem do outro lado. Ou teria que trocar os braços da maquina por outros?

A resposta veio em poucos segundos. Um cara que estava treinando pernas em uma maquina ali perto veio até mim e me ajudou com os ajustes. Era um cara alto, grande e moreno. Seu nome era Mark e ele treinava lá há muitos anos. Agradeci a gentileza e ofereci ajuda caso ele precisasse.

O crucifixo inverso na maquina foi muito bom. Consegui isolar bem a parte posterior do músculo. Foram 3 séries de 10 repetições com cerca de um terço da pilha de tijolos.

Agora só faltavam algumas séries de encolhimento para trapézio e poderia começar a treinar tríceps. Novamente, me dirigi ao rack de halteres. Eu iria realizar o encolhimento de ombros com halteres. Peguei um par de halteres hexagonais, inteiriços, pesando 100 libras (45kgs) cada. Ainda estava me acostumando com o fato dos halteres estarem curvados, provavelmente de tanto serem jogados no chão. Com eles fiz três séries de 10 reps de encolhimento. Depois de cada série, como manda a tradição, o peso era gentilmente jogado no chão.

Me dirigi até uma estação de polias com cross-over que fica bem no centro da sala. A intenção era fazer tríceps no pulley, mas não conseguia encontrar a barrinha correta. Mais uma vez, sem eu nem mesmo pedir, meu amigo Mark veio até mim e deu uma força. Agradeci novamente e ele só respondeu: “Go Hardcore Man!” Isso me motivou a terminar o treino. Faltava pouco agora.
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Fiz as três mais difíceis e suadas séries de tríceps no pulley da minha vida. Sinceramente não me lembro o peso que utilizei, sei que fiz 10 reps na primeira série, oito na segunda e apenas 7 na terceira, mesmo dando um intervalo maior de descanso.


Terminei o treino, ainda ali perto dos halteres, com tríceps coice bilateral. Ou seja, me inclino até o tronco ficar praticamente paralelo com o chão e realizo o movimento do coice como dois braços simultaneamente. Foram três séries também utilizando halteres de 20 libras. Com isso terminava nosso primeiro dia em Arlington, nosso primeiro dia do Tour pelos USA. Com certeza muita coisa ainda nos aguardava.

Treinando costas como Ronnie Coleman

Voltamos à Metroflex no dia seguinte. Brian já havia partido em sua viagem de caça. Só voltaria em alguns dias. Felizmente ele deixou à nossa disposição seu braço direito, Chris. Ele é um cara alto e grande. Certamente Chris tinha um braço com mais de 50 cm, porém não posso dizer que ele era do tipo “rasgado”. Enfim, ele nos ajudou e tratou da melhor forma possível.

Depois de uma boa noite de sono e algumas refeições decentes, estava na hora de mais um treino em um dos lugares mais sagrados para os bodybuilders. Era dia de costas. Como ir até a Metroflex Gym e não treinar costas? Seria um sacrilégio!
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No segundo dia, aquela emoção e excitação inicial já haviam se dissipado a níveis mais adequados. Eu conseguia ver melhor as coisas na academia, perceber mais detalhes. Depois de um breve aquecimento, me dirigi ao tablado onde fica o suporte especialmente construído para que se faça remada curvado com barra. Já havia uma barra lá – torta, é claro – e só precisei colocar as anilhas.

Meu treino de costas seria o mais básico possível, para aproveitar alguns pontos interessantes e únicos da Metroflex. Comecei com a remada curvada com barra, arma importantíssima na trajetória de praticamente todos os Mr Olympia, especialmente dos últimos quatro até então – Jay, Ronnie, Dorian e Haney. A primeira série foi leve, com 60 kgs. Nas últimas séries usei 100 kgs e consegui fazer entre 8 e 10 repetições.

A essa altura, o relógio marcava 10 da manhã em Arlington. O calor novamente nos castigava. Ao terminar as séries na remada curvado, fui até o canto mais famoso da academia para fazer a remada cavalinho. Talvez esse fosse o momento que eu mais aguardava em toda a viagem. O grupo muscular que eu mais gosto de treinar são os dorsais. Meus exercícios preferidos são Remada cavalinho e agachamento respectivamente. Por isso eu não via a hora de treinar costas na Metroflex. Nos vídeos nós vemos Coleman e Branch fazendo esse exercício com aquela mesma barra. Mas a barra deles sempre estava com anilhas até o final. Geralmente 10 ou 12 anilhas de 20 kgs são colocadas nesta barra pelos dois. A minha realidade seria um pouco diferente.

Comecei com 40 kgs, duas anilhas de 45 libras. Fiz uma série curta para “sentir” como estava o peso. Foi leve. Coloquei mais uma anilha de 45 libras (20 kgs); agora a coisa começava a ficar desafiadora. Fiz oito repetições bem feitas. Os intervalos eram bem curtos, curtíssimos. Podemos observar isso no vídeo. A terceira série tinha que começar. Adicionei mais 20 kgs à barra, que agora contava com 80 kgs. Em um bom dia, com o sono em dia, alimentação ok eu consigo usar 100 kgs para umas seis repetições. Naquela ocasião, 80 kgs foi o mais pesado que consegui para fazer boas 9 reps.

Para fazer o próximo exercício me dirigi até o rack com os halteres. Era hora de fazer remada com halteres unilateral. Comecei com um halter hexagonal de 80 libras (36 kgs), a segunda e última série foi com um halter de 45 kgs. As duas séries tiveram uma média de 6 a 8 repetições. Foram séries curtas; mais curtas do que eu gostaria. Agora, eu iria fazer mais três séries de remada no cabo. Desta vez eu iria diminuir o peso e tentar fazer mais repetições. Utilizei uma maquina de remada que fica anexada ao Cross-over.
Na primeira série, usei um terço da pilha de pesos e fiz 11 ou 12 reps com ótima qualidade. Na segunda série coloquei mais ou menos meia pilha de pesos. O descanso foi curto, como de costume, mas o calor e clima extraordinariamente seco estavam drenando toda a energia. Fiz sete ou oito repetições na segunda série. Mas sabia que podia fazer melhor. Resolvi fazer uma terceira série, que inicialmente estava fora dos planos. Aumentei um pouco mais a carga, respirei fundo e consegui uma ótima série com oito repetições. Se o Branch estivesse lá, certamente ele iria se orgulhar de mim.

O último exercício de costas do dia seria puxada pela frente no pulley com pegada aberta. No mesmo cross-over, além do acessório de remada baixa no cabo, temos um puxador pulley. Fiz a primeira série com oito tijolos de carga. Dez repetições macias e suaves. A segunda e última série, foi feita com a mesma carga, dez ou onze repetições muito boas também.

Depois de aproximadamente 50 minutos acabava-se o treino. O calor infernal nos castigava duramente. A experiência de treinar na Metroflex, local sagrado para todos nós, foi de tirar o fôlego. Nunca vou me esquecer das emoções marcantes – avistar a academia de longe, ainda do carro, conhecer pessoalmente Brian Dobson, ver ao vivo os equipamentos, halteres e barras da Metroflex e treinar lá. A atenção que recebi de Brian e Chris e a ajuda de Mark demonstram que lá existe um sentimento de fraternidade, são uma legião de fanáticos por levantar peso e fazem questão de honrar os seus “Irmãos de Ferro.”

Era hora de seguir em frente, nos despedir da Metroflex. Nosso vôo para Los Angeles partia no outro dia bem cedo, mas ainda havia um lugar para visitar. Precisávamos conhecer o restaurante mais famoso de Arlington para os fãs de musculação – o “Black-Eyed Pea”.


Almoço à Moda Texana

Na verdade eu já havia ido ao Black-Eyed Pea no dia anterior. Mas descobri que era uma filial. Ronie ia no principal, situado na Cooper Street, a mesma da academia. A comida lá foi a melhor que eu comi nos EUA em toda a viagem.

O restaurante tem uma decoração característica do Texas, com a fachada toda em madeira. O estado do Texas é conhecido como estado da estrela solitária, alusão feita á sua bandeira, que é formada por duas faixas horizontais branca e vermelha e um quadrado azul com uma estrela dentro. A comida é simples, mas deliciosa. O restaurante tem como público alvo famílias texanas comuns. Nas duas oportunidades que estivemos lá, muitos casais de idosos estavam presentes.

Quando cheguei no restaurante da segunda vez, disse ao garçom que eu só estava lá por que era um fã de Ronnie Coleman. Ele imediatamente chamou a gerente do lugar. Pensei: “Será que falei uma besteira? Será que Ronnie é Persona non grata aqui agora?”
A gerente chegou e o garçom disse a ela que éramos fãs de Ronnie. Ela abriu um belo sorriso. Disse que Ronnie ia sempre lá. Sempre se senta no mesmo lugar e sempre pede o mesmo prato. Ela ainda disse que estava quase na hora de ele chegar. Ele vem quase todo dia aqui. De vez em quando, duas vezes por dia. Iríamos comer, sem pressa, e esperar um pouco. Quem sabe ele não chega.

A entrada é uma cestinha com bolo de milho e pão de milho, quentinhos, direto do forno. Eu não gosto muito de milho. Mas aquele pãozinho e o bolo são simplesmente deliciosos. Junto vem uma manteiga, mais macia, aerada. Muito bom. Pouco tempo depois, um rapaz vem até a mesa. É ele o garçom preferido de Ronnie. O rapaz fala um pouco sobre o Mr Olympia e seus hábitos alimentares pouco comuns. Ele come “muito” segundo o rapaz.

Parece que todos os pratos vendidos em restaurantes dos EUA têm batata frita como acompanhamento. Pedimos a mesma coisa do dia anterior – Frango grelhado, arroz amarelo – que não era nem um pouco gostoso, brócolis e batata frita. Eles não servem e nem fazem arroz branco no Black-Eyed Pea. Quando pedi arroz branco, a garçonete não fez uma cara muito boa. Disse que só tinham os arrozes temperados.

Depois de uma ótima refeição, esperamos um pouco mais para ver se Ronnie aparecia. Ele não apareceu. Fomos dar uma volta rápida pela cidade e depois voltamos ao Hotel para fazer as malas. Na manhã seguinte precisávamos voltar para Dallas/Fort Worth e pegar nosso vôo para a ensolarada Los Angeles. Califórnia aí vamos nós!

Vejam os Vídeos:

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