COMO SE TORNAR UM CULTURISTA – EPISÓDIO V

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COMO SE TORNAR UM CULTURISTA

 

 

 

Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.

Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.

A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens é real, exceto Leo.

Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos é caricata e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.com.br

 

Gostaria de agradecer o grande número de e-mails que recebi a respeito da saga Leo. A aprovação do público foi instantânea e provavelmente a série terá a duração prevista inicialmente de dez episódios. Algumas pessoas que treinam na mesma academia que eu, vieram me perguntar se o Leo realmente existia e quem ele era. Infelizmente o Leo não existe, é fruto de uma mistura de várias pessoas que conheci e fatos que ouvi ao longo de minha vida na academia. O nome da personagem é Leonel, por isso o apelido Leo.  A grande maioria dos outros personagens é real, mas seus nomes foram mudados e nem todos os seus atos correspondem as suas ações de verdade. Nenhum dos fatos narrados aqui ocorreu de verdade.  Gostaria de reforçar que esta é uma história fictícia e que não deve ser considerada como fonte de informações para nenhum tipo de pessoa. 

 

 

 

Episódio V – A Viagem

 

“Miguel, você REALMENTE acha que vale a pena pagar para ver a palestra do  Mr Olympia?” O Leo sempre usava a palavra “realmente” com uma entonação mais forte quando queria mostrar que discordava ou não estava totalmente certo sobre uma opinião minha.  Ele estava com dó de gastar todo aquele dinheiro na viagem e nos convites.

 

“Como vamos fazer? São duas horas de viagem para ir e mais duas para voltar? Como vou manter a dieta assim? Não tem como!” Esse jeito meio desesperado do Leo ainda me causava certa irritação. Mas eu tinha prometido que iria ajudá-lo e ensina-lo a como ser um culturista.  “Não se preocupe com isso menino. Precisamos agora ir ao banco fazer o depósito para pegar os convites.” Era começo de mês, ainda por cima uma Segunda-Feira, o depósito deveria ser feito no Banco do Brasil ou no Bradesco. Não havia lugar pior para se pegar uma enorme fila do que estes dois bancos. Claro que o Aprendiz ficou na fila enquanto eu esperava no carro, sob a sombra das árvores.  Fizemos o depósito e fomos embora. Na volta passamos no restaurante do Teles para almoçar.  O Leo já começava a ficar entusiasmado com a idéia de seu primeiro grande evento no meio do culturismo. Ele só tinha ido a um pequeno campeonato do interior. Nunca participou de uma coisa tão grande quanto á que estávamos prestes a ir.

 

“Teles, sabe para onde iremos no próximo final de semana? Vamos assistir a palestra do Mr Olympia.” Teles, o filho do dono do restaurante, era um menino novo, assim como o Leo. O engraçado era que Teles treinava há menos tempo e tinha uma dieta pior que a de Leo. Mas de alguma forma o seu físico era superior ao do meu pupilo tanto em volume quanto em qualidade. Eu percebia que esse fato incomodava muito o nosso herói e que por isso ele não ia muito com a cara do Teles.

 

O Teles ficou surpreso com a noticia e perguntou se havia lugar para ele ir também.  “Claro Teles, você só precisa fazer o depósito do valor do convite e ligar para este número para confirmar seu lugar.” Na mesma hora o Leo me fuzilou com o olhar. Pude ler em seus olhos –“Por que você tinha que deixar esse cara vir junto?”

 

Já haviam se passado algumas semanas, o progresso de Leo era aparente. Todos percebiam e o elogiavam na academia e fora dela. A auto-estima dele estava nas alturas mas parecia que seu ego também estava se exacerbando. Eu estava feliz por estar conseguindo realizar tamanha mudança em seu físico, mas estava preocupado pois não sabia como sua cabeça estava reagindo a tudo isso. Não são raros os casos nos quais a criatura se volta contra o criador. Como sempre, esse cara me intrigava e me deixava sem saber o que pensar.

 

Na Quarta-Feira antes do evento, que seria no Sábado, recebi a ligação de um velho amigo e parceiro de treinos, o Thiago Lus. Acho muito interessante o estudo da etimologia das palavras. Gosto de saber de onde vieram as palavras. Quando se trata de nomes, o interesse é ainda maior. Sei que o sobrenome do dono da academia, Leha, é de origem francesa, mas provavelmente se originou na Bélgica.  O meu próprio nome é bem interessante, Chain vem de Khain ou Cain, em hebreu quer dizer Lança, em árabe quer dizer ferreiro. Disse tudo isso, pois queria chegar ao ponto de dizer que o nome do Thiago – “Lus” era totalmente desconhecido para mim. Para nossa chateação, nem ele próprio sabia nos dizer.

 

Continuando a história de meu amigo Thiago, nós treinamos juntos por muito tempo em São Carlos. Thiago era um obcecado por se tornar o mais gigante possível. Todos os treinos com ele eram uma luta, pois ele era determinado e exigia muito de mim. Thiago queria tanto ficar grande que foi passar uma temporada em Fullerton na academia do antigo competidor e agora guru Milos Sarcev. Ele havia chegado a poucas semanas dos EUA e estava em Campinas na casa de seus pais. Ele me ligou dizendo se eu podia passar por lá e dar uma carona para ele ir na palestra do Mr Olympia. “Claro que sim! Aí aproveitamos para ver as fotos de sua viagem.” Por incrível que pareça o Thiagão só havia me mandado uma foto de seus treinos com Milos, nela ele estava fazendo Leg-press. Agora sim eu poderia ver todas elas.

 

Na Quarta-Feira ainda eu estava esperando o Leo para nosso treino. Quando ele chegou perguntei que dia ele iria se depilar. “Me depilar Miguel? Você está louco? Se minha mãe me vê sem pelos ela me mata!”

 

“Leo, ter o corpo depilado faz parte da tribo dos culturistas. Da mesma forma que quando você entra em um ônibus e vê um cara todo de preto e já imagina que ele é um metaleiro, se você encontrar um cara grandão com os braços e pernas depilados, vai saber que ele é um culturista. No meio do culturismo, é uma questão de identificação com o grupo ter o corpo sem pelos.” Diante desse fato devastador, Leo pensa como fará para tirar o pelo de seu corpo sem chamar a atenção de sua família. “Miguel, tem certeza que eu REALMENTE preciso me depilar para ir lá?” Nem respondi.

 

Esse problema é muito comum entre os culturistas. Depois de anos e anos na academia, tiramos os pelos do corpo para deixar mais aparente a musculatura que ganhamos com tanto custo. Quando vamos a um campeonato de musculação ou palestra ou qualquer outro evento ligado a esse mundo, percebemos que a grande maioria se depila. Assim todos podem se identificar com seu grupo. Mas infelizmente nossa cultura é extremamente machista e dita que o homem precisa ter pelos para ser macho. Ter os braços e pernas depilados é coisa de viado. Gostaria de saber por que um punhado de pelos é tão determinante para se comprovar a virilidade de um homem.  Quando um jovem como o Leo decide tirar os pelos do corpo, os familiares são os primeiros a se interpor, a criar dificuldades. Depois vêm os amigos e em alguns casos as namoradas ou esposas. Leo se deparava com o primeiro e talvez mais aterrador obstáculo para um jovem que pretende entrar no mundo do culturismo – A falta de apoio da família. Ele nem tinha falado nada para os seus pais sobre a depilação, mas a sua insegurança sobre o assunto já me fazia imaginar que este seria o motivo.

 

A situação ficava ainda pior, pois Leo tinha muito pelo no corpo. Era claro que quando ele depilasse, a diferença seria clara e todos, mesmo os que o conhecem menos, iriam perceber. Sugeri a ele que tirasse apenas os pelos dos braços e peito/barriga naquele dia e que observasse a reação da família. Se fosse tudo bem, ele tirava os pelos das pernas no dia seguinte.

 

No dia seguinte Leo chega na academia para nosso treino. O inverno já havia acabado, e São Carlos passava por dias de imenso calor. Mesmo assim nosso herói chegara na academia de calça de abrigo e um moletom.  “O que houve Leo? Está doente? Está louco?” Perguntei, mas já imaginava a causa das roupas. “Leo você está com vergonha da gente? Se depilou está tímido?” Lá do fundo da academia surge um grito: “Viaaado!”  Era o Ricardo, dono da academia, dando sua opinião sobre as roupas do Leo. Ele achava que já que o Leo tinha se depilado, ele tinha que mostrar. Bem, os pais dele acharam super estranho, mas ainda sim discutiram pouco.

 

Ele nos contou que na hora do banho ele tomou coragem, pegou o barbeador, um punhado de laminas novas e foi tirar todos os pelos. Na hora que ele havia terminado, Leo olhou para baixo e viu enormes tufos de pelos entupindo o ralo do banheiro e alguns cortes e sangue pelo corpo.  Agora tinha um problema a menos para me preocupar.

 

Leo já havia passado pelo batismo da primeira depilação, mas ainda estava preocupado com a comida. “Como vamos fazer com a comida Miguel?” Pensei um pouco. “Você tem uma bolsa térmica grande? Ótimo, prepara ela, faz sua comida, coloca tudo em potinhos plásticos e guarda lá. Ah e deixa um espacinho para eu colocar os meus potinhos também.” Eu me aproveitava do Leo sempre que podia, mas também era justo, pois eu o ajudava sempre que ele precisava. Isso não impedia que ele me olhasse feio de vez em quando.

 

Chegara o grande dia. Há muito tempo eu não via um IFBB pro de alto nível. Todos estávamos ansiosos. Além de poder ver o Mr Olympia, passaríamos um dia entre amigos, sem maiores preocupações, fato raro nos últimos meses. Chequei o carro, peguei os comprovantes de depósito para conseguir entrar no auditório, o mapa com o endereço. Rumei para a casa do Leo. Como sempre ele estava atrasado. Aguardei um pouco do lado de fora. Guardamos a comida no porta-malas e fomos buscar o Teles e o Ricardo. Pegamos a estrada e próxima parada era Campinas. Precisávamos pegar nosso amigo Thiago.

 

Depois de quase três horas de viagem chegávamos à cidade de São Paulo. Álvares de Azevedo disse em um de seus livros que São Paulo era a cidade com nome de Santo, mas quem mandava lá era o Diabo. Era mais ou menos assim, um cheiro horrível, transito infernal. Pessoalmente não gosto muito de São Paulo, mas existem milhares e milhares de pessoas que adoram. Não posso discutir com eles. Passamos pela Marginal Pinheiros e entramos em uma avenida. Nesse momento Leo nos chamou a atenção e disse: “Miguel, tem um Bob´s ali na frente. Você podia parar para eu pegar um Milk-Shake?”

 

Era óbvio que o vicio do Leo em Milk-Shakes do Bobs ainda não havia se dissipado. “Mas Miguel, por favor. Um só! Não tem Bobs lá em São Carlos e não é todo dia que venho a São Paulo ou Rio Preto. Tenho que aproveitar.” Preciso comentar uma coisa dessas? “Leo você tem um objetivo em mente, e se você não souber dizer não para o próximo Milk-shake ou prato de macarrão, será muito complicado chegar ao lugar que você almeja.”

 

Logo chegamos ao teatro. Havia muita gente lá. Todos os competidores Top do Brasil estavam presentes. Consegui lugares na primeira fileira, bem na frente do palco. Tivemos a melhor visão em todo teatro. A única coisa meio complicada era que os fotógrafos do Brasil não estavam autorizados a subir no Palco. Então eles ficavam bem na nossa frente atrapalhando nossa visão. Teve uma hora que o Ricardo não agüentou e pediu para que um deles saísse da frente. O cara disse que não, pois estava trabalhando. Ricardo, então disse ao fotografo que se não saísse, ele iria colocar um dedo na bunda dele. O fotografo olhou para nós meio assustado, mas decidiu sair da nossa frente.

 

Durante o intervalo fomos até uma salinha onde havia uma mesa montada vendendo souvenires do Mr Olympia. O Leo ficou impressionado com um lutador de vale-tudo que estava lá. O cara lutava o UFC, tinha 1,90 e pesava uns 100 quilos. Era fácil de notá-lo pois ele era o único vestido com uma regata camuflada e uma calça vermelha.Toda a nossa turma estava falando besteiras, fazendo piadas e Leo também queria fazer parte disso. “Pessoal, olha só! Olhem aquela menina na loja. Olha o tamanho da bunda dela! Vou lá pedir para tirar uma foto. Olhem só!” E ele se dirigiu até a menina, sem saber o que vinha pela frente. “Oi, tudo bem? Você é muito linda. Tem um belo corpo. Você treina?” A moça respondeu meio desconfortável. “Treino sim” Foi aí que o Dom Juan atacou. “Será que eu podia tirar uma foto da sua bunda?” A moça toda irritada respondeu na lata: “Pede pro meu marido. Ele é esse cara vestindo uma camiseta camuflada e calça vermelha aí do seu lado.” Oh não.

 

Já na hora de ir embora, dentro do carro nós comentávamos como a segunda parte da palestra havia sido muito interessante. O Leo estava emburrado lá atrás. “É, eu não consegui ver nada da segunda parte da palestra.” Claro que não. Ele foi obrigado a ficar o tempo todo no banheiro, se escondendo do lutador de vale-tudo…

 

Na estrada, o celular do Leo toca. Ele atende correndo. Fala baixinho com a pessoa do outro lado da linha, como se ele não quisesse que a gente ouvisse nada. “Quem era Leo?” Ele já meio vermelho respondeu com uma voz envergonhada. “Era a Mônica. Uma amiga minha.” Amiga?  Sei…

 

 

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