Um dia para ficar na memória

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A vida é cheia de fatos marcantes,  a primeira bicicleta, o primeiro carro, o primeiro beijo, a primeira vez (não necessariamente nesta ordem).  Existem outros momentos que também nos marcam profundamente, como a primeira competição,  o encontro com um de seus ídolos ou uma ocasião onde você ou alguém próximo se supera e faz algo que não achava ser possível.

Neste final de semana tivemos uma dessas ocasiões, inesquecíveis e marcantes – com todos ingredientes de uma história cheia de emoção, tensão e suspense.

 

Sábado, 20 de Julho – 4 semanas para a competição

 

O ano de 2013 estava complicado. Já era Julho e após duas lesões relativamente sérias no ombro no começo do ano, eu começava finalmente a embalar nos treinos e evoluir tanto na qualidade do físico quanto na força e potencia para as competições de Levantamente Terra.

Era Sábado, o final de uma das semanas mais frias do ano. Os termômetros chegavam a marcar 5° no centro de São Carlos.  Eu, o Henrique Meia Noite e o Gustavão estávamos prontos para começar nosso treino de Sábado – o Speed Day – onde fazemos um volume alto de séries curtas de terra com bandas elásticas e saltos profundos. No começo do treino, ao me alongar, senti uma pressão no joelho. Percebi que ele estava inchado.  Era o mesmo joelho que havia sido submetido a uma artroscopia para corrigir uma pequena lesão de menisco, anos atrás.

Resolvi que era mais inteligente (realmente?) ignorar esse fato e continuar treinando o mais pesado possível, pois eu tinha o Paulista de Lev Terra dentro de 4 semanas e nada me faria desistir.Claramente que alguma coisa estava irritada no meu joelho. E a situação acabou piorando ao longo das semanas.

 

Terça, 23 de Julho – Cerca de 3 e ½ semanas para a competição

 

Na noite anterior, eu e o Meia Noite havíamos treinado costas. Era um treino de esforço máximo de Terra na verdade – parte vital de nossa preparação para o Paulista de Terra. Treino o Meio Noite há alguns anos e conheço a garra que ele tem. Naquela segunda, e nas segundas anteriores, ele estava apagado, meio apático. Se isso continuasse se repetindo, o sucesso no Paulista estaria seriamente comprometido.

Na Terça a tarde, logo após uma rápida viagem a São Paulo, passei na padaria para tomar um café e tentar me esquentar. Eram Cinco da tarde e resolvi ir até o banco onde o Meia Noite trabalha. Era perto dali e fui caminhando. Caminhei uns bons quarteirões por uma avenida, o vento estava congelante, a neblina cobria o topo dos prédios mais altos e não podia se enxergar muita coisa 200 metros a frente naquela fria tarde na qual a temperatura chegou a seis graus.Tive uma conversa sérissima e dura com o Meia Noite. Ou ele mudava para uma atitude mais agressiva e confiante nos treinos ou os resultados nunca iriam chegar.

Ele tinha uma barreira psicológica com os 180 kgs no terra. Chegava bem até os 170kgs, mas só havia feito 180 kgs uma única vez, e com a forma de execução muito ruim.

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Segunda, 05 de Agosto – menos de uma semana para a competição

 

O joelho estava na mesma, ainda inchado e com um pouco de dor. Nessa noite eu teria o último treino de esforço máximo antes do Paulista, que seria realizado no Sábado, dia 10. Como meu joelho ainda estava ruim, não fiz terra. Fiz muitas séries de Good Morning sentado e várias outras de Chair Deadlift – uma espécie de exercício educativo que usamos para melhorar a força dos paravertebrais na saída do Terra.

Nos dias seguintes, a fisioterapia intensiva continuava.Na Quinta-Feira a noite, em uma reunião com o meu fisioterapeuta, resolvi definitivamente que não iria competir. O Mundial WABDL nos EUA estava a apenas 13 semanas de distancia e qualquer lesão mais severa neste momento iria atrapalhar muito meus planos para esta competição.Não existe uma lesão grave no joelho, mas essa inflamação poderia piorar, e quanto mais stress eu coloco no joelho, mais ele vai demorar par ficar bom.

De qualquer forma, na Sexta a noite preparei minhas refeições para o dia seguinte e preparei minha mala para a competição, coloquei meu macaquinho, os meiões, pó de magnésio, talco – tudo preparado como se eu fosse competir. A essa altura eu não sabia o que fazer; e imaginava que se me sentisse realmente bem durante o aquecimento, eu iria competir.

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Sábado – 10 de Agosto – Dia da Competição

 

A competição seria em Rio Claro, a menos de 70 km de São Carlos. Saimos cedo para chegar bem no início da pesagem. O Meia Noite estava extremamente motivado e confiante, bem diferente daquele cara de três semanas atrás.Chegamos lá e fomos nos pesar. O Meia Noite pesou 66,5kgs e caiu na sua categoria costumeira – até 67,5kgs.

Eu costumo competir na Categoria até 90 kgs. Pesei 90,7kgs e precisava perder alguns gramas para me enquadrar nesta categoria. Voltei um tempo depois e fiz o peso.  O primeiro round da batalha estava vencido.Faltava esperar o aquecimento e ver se eu me sentiria em condições de competir.

Antes do início da competição, recebi uma placa em homenagem aos resultados alcançados no ano passado e pela minah contribuição com o Bodybuilding e Powerlifting nos meios de comunicação nacionais. Foi uma honra e uma felicidade muito grande.

 

Após algumas horas de espera, o aquecimento do Terra começava. O Meia Noite ia bem. Eu comecei a fazer algumas repetições e me senti especialmente bem. Resolvi que faria apenas um levantamento, com 220 kgs e torceria para pegar um pódio. De acordo com as cargas na barra, o Meia Noite iria começar e terminar antes de mim. Era perfeito pois eu poderia dar o apoio e suporte que ele precisava sem me preocupar com o meu levantamento. O nosso amigo e parceiro de treinos Bodybuilder Jr da IFBB Lucas também estava lá com sua noiva e nos ajudou muito.

Ele começou com 160 kgs e fez com muita facilidade. O Gelo estava quebrado. Na segunda ele pediu 170 kgs e fez também com uma facilidade nunca antes alcançada por ele. Era o que faltava para dar a ele a confiança de pedir 180 kgs e vencer a competição.

Na hora que ele se posicionou a frente da barra as dúvidas começaram a surgir na minha cabeça – “Será que ele vai conseguir levantar?” , “Será que el evai ter a mente forte neste momento e não se deixar intimidar pelo peso?”

E ele conseguiu! Em um esforço monumental, ele fez o movimento válido, com uma execução muito boa e quebrou essa barreira. Ele acabava de superar uma barreira física de 180kgs, mas além disso superava uma enorme barreira psicológica.

Naquele Sábado, o Meia Noite vencera o Campeonato Paulista de Levantamento Terra, mas, mais que isso, ele vencera a si próprio, seus medos, suas inseguranças e provou para si mesmo – e para todos os outros – que ele era um Homem mais forte, por dentro e por fora.

 

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A Hora

Depois da emoção com o Henrique Meia Noite, era hora de encarar meus medos em relação a lesão no joelho. Estava chegando a hora do meu levantamento.  Os anilheiros colocaram 220 kgs na barra e eu fui lá, fazer a minha única pedida. Depois disso eu iria me sentar e torcer para conseguir um pódio.

Fiz o movimento com extrema facilidade. Duzentos e vinte quilos nunca pareceram tão leves. Não senti nada no joelho. A adrenalina estava nas alturas. Eu sabia que isso poderia e iria mascarar qualquer dor ou sinal primário de uma lesão um pouco mais séria que pudesse vir a ocorrer. Mas mesmo assim resolvi fazer uma segunda pedida. Desta vez com 240 kgs.

Esse peso é meio complicado para mim. Já fiz 250 kgs e 255kgs em competições oficiais. Mas nunca fiz mais que 240 kgs na academia. Uma semana antes de sentir meu joelho, eu havia feito 3 reps com 240 kgs, mas havia falhado em levantar 260 kgs. Com os 240 kgs na barra, lá fui eu. Estava muito concentrado. Mais uma vez, levantei o peso com facilidade e sem dor nenhuma. Fui até  a mesa e resolvi pedir 260 kgs.

Já estava tudo indo tão bem, por que não tentar bater meu record pessoal?

Poucos minutos depois a barra já estava montada e lá fui eu me posicionar. Fiquei frente a frente com a barra. Aquele peso já havia me vencido duas vezes.

Agora, a história seria outra.  Me concentrei, sentia a pulsação de minhas veias, não escutava nada. Encarei a barra fixamente, olhei para frente rapidamente e vi as pessoas gritando. Literalmente vi os gritos – conseguia ver as bocas se movimentando, mas não escutava  nada.

Havia chegado a hora.Me posicionei, fiz a pegada, firmei as costas, respirei, travei o ar e comecei a empurrar o chão para baixo.  A barra subiu muito rápido até pouco acima dos joelhos – que é a minha parte forte, a luta seria para fazer o lock-out do movimento – e tive que lutar por alguns segundos até travar e finalizar, mas consegui. A barreira de 260 kgs havia sido quebrada e eu era tri-campeão Paulista!

Era realmente um dia que nunca sairia de nossa memória.

 

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Mais algumas fotos:

 

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