Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.
Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.
A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens são reais, exceto Leo.
Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos são caricatos e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.
Primeiro Episódio:
Há alguns meses voltei a morar em São Carlos e desde então tenho treinado muito pesado. A convivência com pessoas que amam o esporte em uma academia onde o treino pesado é prioridade aumenta muito a nossa motivação. Depois de todos esses anos treinando eu nunca imaginava que poderia melhorar tanto meu físico em tão pouco tempo.
Sempre fui um amante da musculação, tenho pilhas e pilhas de revistas, nacionais e importadas, Livros sobre treino com pesos e histórias relacionadas se empilham em minha escrivaninha. Fora a coleção de DVDs, horas intermináveis de vídeo com o que há de melhor no esporte.
Essa paixão é alimentada por tudo isso e claro, pelos treinos. Treinos super intensos, cheios de suor, muita dor e pesos extremos. Foi durante um desses treinos que eu percebi este menino me olhando atentamente. Entre as séries eu tentava olhar disfarçadamente para ver se o cara ainda estava lá. Ele estava.
Era uma tarde fria em São Carlos, o vento soprava forte e gelado. Nunca gostei de frio, fico muito mal humorado. Estava treinando peito naquele dia, meu cotovelo doía. Eu não conseguia treinar da maneira que eu queria e ainda por cima ficava este cara me olhando o tempo todo.
Ele estava com uma bermuda Nike, uma camiseta preta onde podíamos ver um copo de milk Shake do Bob´s estampada. Provavelmente ele era um grande fã dessa cadeia de fast food. Parecia pesar uns 90 ou 95 kgs. Nada mal para a altura dele. Apesar de não se enorme podíamos notar que ele treinava. O que realmente chamava a atenção no físico dele era a cintura, bem larga e grande. Podíamos perceber que a gordura caia sobre a bermuda.
Imaginei que ele me conhecia pelo blog DC ou pelos artigos nas revistas e sites onde escrevo. Com certeza ele estava me observando e esperando pela chance de poder tirar um pouco de conhecimento de mim.
Acabei meu treino, estava com pressa. Precisava ir ao mercado comprar comida ( Frango), depois tinha que cozinhar ainda. Coloquei o agasalho e me dirigi à portaria. Ele estava parado ao lado da roleta. Passei por ele e cumprimentei com a cabeça, tentando sair o mais rápido possível.
“Posso falar com você?” O garoto perguntou.
“Pois não, pode falar.” Respondi desanimado…
” Você que é o Miguel? Acabei de voltar para São Carlos e tenho treinado aqui há alguns dias. Parece que todos falam sobre seus treinos por aqui. Eu tenho algumas dúvidas e o Ricardo ( dono da academia) me falou que só você podia me ajudar. ”
Já fiquei puto da vida pois sabia o que o Ricardo tinha me aprontado uma. Conheço o Ricardo há muitos anos, ele dirige a academia muito bem e sabe muito sobre musculação. O problema é que sempre que chega alguém que ele percebe que vai ser um mala, cheio de perguntas bobas e desnecessárias, esse alguém sempre será enviado a mim por ele. Valeu Ricardo por mandar mais um mala me encher a paciência!
“Queria saber se posso te perguntar umas coisas. Percebi que você treina muito bem e tem um bom físico.” Bem parecia que ele não sabia quem eu era, mas pelo menos admirava meu desenvolvimento. Vamos ver se posso ajudá-lo.
” Meu nome é Leo. Você se chama Miguel, certo?” balancei a cabeça positivamente. “Miguel, treino há dois anos. Consegui melhorar um pouco meu físico, mas agora faz uns meses que não vejo progresso. Sempre quis competir. Subir em um palco, mas tudo parece bem difícil sozinho. Hoje sou mais realista e ficaria muito feliz se eu pudesse apenas ver veias saindo no meu antebraço.”
O menino tava parecendo um pão. Com bastante gordura, nenhuma veia aparente. Tava feio o negócio. Pouco tempo depois descobri que seu apelido na academia era Zé Colméia, pela barriga e pela avidez com a qual ele procurava comida.
Ele me pareceu bem sincero e demonstrou um claro interesse pelos treinos mas não sei se tem o amor suficiente pelo esporte a ponto de enfrentar os rigores de uma dieta para competição. Hoje em dia é difícil vermos nas academias pessoas na idade dele realmente interessadas em conquistar um grande físico, completo e simétrico, não posso culpa-lo por ainda não ser assim. Pelo menos ele está interessado em melhorar. A maioria dos garotos só quer fazer peito e bíceps para impressionar as meninas na escola e faculdade. Me parecia que o Léo não era assim.
“Sabe Leo, alguns meninos como você já me pediram ajuda para treinar, mas nenhum foi macho o suficiente para suportar o sacrifício necessário para se tornar um Culturista. Desculpe mas estou cansado de começar a treinar com alguém e depois de duas semanas o cara sumir sem dar satisfação.”
O garoto se enfurece: ” Você não me conhece Miguel, quero muito isso, e estou disposto a fazer o que for preciso. Me dê uma chance e você verá do que sou capaz.”
Já ouvi muito isso, mas resolvi dar uma chance ao menino. Alguma coisa me dizia que ele era diferente.
Abri minha bolsa de treino e mostrei para ele tudo o que tinha dentro, cinto, faixas para o joelho, straps, luvas cotoveleiras e o mais importante: uma coqueteleira vazia e um potinho com algumas cápsulas. ” Leo, isto aqui era um shake, whey protein, dextrose, creatina, gutamina. Neste frasco tem algumas cápsulas de efedrina e cafeína. Treinar pesado não é fácil, nem sempre é confortável e as vezes ficamos escravos de nosso treino para podermos obter o resultado desejado. Em algumas manhãs geladas será preciso levantar da cama antes do sol nascer para fazer aeróbio. Durante os meus doze anos de treino pesado e super intenso acumulei algumas lesões. Você está disposto a fazer tudo isto? ” Fiz de tudo para que o menino se assustasse e dissesse que não queria mais minha ajuda.
“Queria saber se você acha que eu tenho genética boa para competir, ou pelo menos se eu vou conseguir fazer as veias do meu antebraço ficarem aparentes como as suas ?” Ele pergunta meio tímido esperando uma resposta não muito animadora.
“Conheci muitos caras com a genética muito melhor que a minha Leo. Todos eles cresciam muito fácil, acumulavam pouca gordura, mas não tinham a vontade e a dedicação necessárias para ter um bom físico. Uma vez o Branch Warren disse que ele com certeza não tinha a melhor das genéticas para um culturista profissional ( se ele não tem imagina a gente!) . Mas que ele tinha uma ética profissional e uma dedicação e determinação inigualáveis. Ele falou que preferia muito mais ter uma mente determinada, forte e uma ética de trabalho inabalável do que ter uma boa genética. Então não se preocupe muito com a genética por enquanto, TREINE FORTE!.” O garoto sorriu e agradeceu. ” Espero você aqui amanhã ás dez horas. Coma um bom café da manhã e venha preparado para treinar costas.”
“Mas eu treinei costas hoje Miguel.”
“Agora que treinaremos juntos, você fará o que eu disser meu rapaz. Te espero amanhã. Falou.”
Enquanto eu dirigia rumo ao supermercado eu ficava pensando se esse cara sabia onde ele tinha se metido…
