Essa entrevista com Fernando Luis Sardinha foi realizado no dia 02 de Dezembro de 2006. Originalmente ela foi publicada no site Treino Pesado. Fenando tem uma personalidade marcante e uma humildade rara em atletas que atingem um nível tão alto em seu esporte. Estou publicando este texto aqui no DC pois acho que vale muito a pena conhecer esse atleta incrivel.
Um cara Bem Humorado
A última semana antes de uma competição é uma das mais estressantes para os culturistas. Semanas inteiras em dieta, a base de frango e batata, treinos super intensos, horas intermináveis em cima da esteira. Essa é vida de um culturista tempos antes de um campeonato. Some tudo isso à ansiedade, cansaço, fadiga psicológica e você pode se deparar com uma pessoa a beira de um ataque de nervos.
Conheço alguns atletas que ficam intragáveis na ultima semana de preparação. Mas felizmente, Fernando Sardinha não é um deles. O cara é muito bem humorado, simpático e humilde. Me recebeu de portas abertas para esta entrevista na sua casa em Ribeirão Preto, ótima cidade no interior do Estado de São Paulo.
Batman e Robin? Não, Obrigado!
Sardinha começou a treinar em 85 com o objetivo de conseguir um melhor condicionamento físico para o judô. Desde criança ele já deixava de ir brincar com as outras crianças para erguer as latas de tinta da vizinha.
Ele afirma que a paixão pela musculação vem de outras vidas. Super-Herói? Tinha que ser musculoso. Super Man e príncipe Namor, que segundo Sardinha era o culturista em pessoa, forte, usando uma sunga verde eram seus preferidos. Nada de Batman e Robin.
Seis meses após iniciar os treinos com peso, o judô é abandonado. Hoje ele tem 21 anos de treino e 17 anos de competição nas costas.
A conexão com a arte
Um fato bem curioso é que Fernando Sardinha, além de competidor, palestrante, árbitro, personal trainer e pai de família, é também músico. E musico profissional, de carteirinha.
Filho de uma família de músicos, ele tocava teclado e cantava em bailes, festas de casamento e tudo mais o que viesse pela frente junto com sua família.
Mas a vida de músico nada tem a ver com a de culturista. Um músico vive na noite, convive com fumo, álcool e outras drogas. Dorme de madrugada, não tem hora para se alimentar. Foi justamente dessa vida que a musculação o tirou.
Anos mais tarde ele se mudou para São Paulo, foi estudar teatro com Oswaldo Montenegro, participou de algumas peças por lá. Deve ter sido nessa ocasião que ele desenvolveu essa capacidade tão grande de cativar a platéia quando está em cima do palco.
As competições
A primeira competição de Fernando Sardinha foi em 89 no Campeonato Paulista Junior. Ele foi campeão da categoria junior leve, com atletas pesando até 70 kgs. Não foi uma competição de nível técnico altíssimo, mas ele se saiu muito bem. Meses mais tarde ele ficaria em terceiro no brasileiro.
No ano seguinte ele conseguiu o Bi-Campeonato paulista e novamente ficou em terceiro no Brasileiro. Foi aí que ele conheceu um de seus melhores amigos, Edson Serafin. No paulista Sardinha venceu Edson, e no Brasileiro o resultado se inverteu. Começava aí uma grande amizade.
Sardinha é um atleta que compete muito, muito mesmo. E isso se reflete em títulos, são 48 primeiros lugares. Com ele não tem tempo ruim. Tem um campeonato aí? Se ele souber ele vai, com certeza!
Vamos à entrevista. Ela foi realizada no Sábado, dia 2 de Dezembro, exatamente uma semana antes do Mr. Santos.
Miguel Chain :Li uma vez que para ser um culturista, você tem que ter força nos braços, mas além disso tem que ter na cabeça e no coração. Você acha isso mesmo?
Fernando Sardinha: Com certeza, você pega um jogador de basquete, ele vai fazer o que vai lhe dar dinheiro. Nesse último ano ganhei muito dinheiro com fotos, como modelo, e em campeonatos com prêmio em dinheiro.Também ganho suplementos, que para mim são como dinheiro.
Sempre estudei muito os suplementos e sempre achei muito válido usa-los, eu sou um dos poucos atletas que usa whey protein e malto mesmo no final da preparação. Muitos falam que o Sardinha nunca entrou seco numa competição. É porque eu tenho uma genética péssima, e consegui o que tenho hoje graças a muito estudo, determinação e esforço. Se eu não tivesse minha cabeça e meu coração eu nunca teria vencido nada.
MC: E se pudesse escolher entre uma ótima genética ou uma ética de trabalho igual a sua?
FS:Não vou ser demagógico aqui. Essa semana as coisas estão tão difíceis, que talvez hoje eu optasse por ter uma genética ótima. É muito sofrido, eu sou um cara realizado, fui Campeão Paulista Overall. Tem horas que eu esqueço isso no dia a dia, é incrível, foi uma conquista inédita na minha vida. Estive ao lado do Artur Andrade, que sempre entra com o glúteo estriado, um cara que tinha tudo para ir para o Mr Universo. O nível foi muito alto. Eu me classifiquei para o Mr Universo, mas não pude ir devido a falta de dinheiro.
Minha força de vontade que me leva a essas conquistas. Meu coração e minha cabeça me levam a conquistar tudo isso. Por exemplo, eu quero muito ser campeão mundial. Eu desejo isso. Ano que vem eu vou fazer das tripas coração para viajar ou para o Campeonato Mundial ou para o Mr Universo.
MC: Você faz um período de Off-Season mais pesado ou prefere ficar em forma praticamente o ano todo?
FS:Prefiro ficar em boa condição o ano inteiro. Acho que isso me dá mais condições de trabalho, de fazer fotos, entrevistas. Tenho amigos que fazem um off mais pesado, nem por isso eles deixam de se apresentar em ótima condição em cima do palco. Mas eu prefiro me manter assim. De manter minha pressão arterial regular o ano inteiro, de poder tirar a camisa a qualquer hora para uma foto.
MC: Chegar aos 60 anos e estar bem…
FS:Claro, com 60 estarei competindo na máster. Todo mundo gostaria de ser Jay Cutler, claro que eu gostaria de ter uma boa genética.
MC:Mas se você tivesse uma ótima genética, talvez não estivesse enterrado num pote de sorvete agora?
FS:Talvez sim, mas é que estou em uma semana bem sofrida, que eu ainda acho que preferia a genética. Eu falo para alguns amigos: eu com a sua genética seria Campeão Mundial. Com minha cabeça e sua genética eu seria Campeão Mundial.
MC: O paulista foi um dos grandes títulos de sua carreira, talvez o de maior expressão. A sua preparação teve alguma mudança em relação as anteriores?
FS: Foi diferente pois eu comecei a me ouvir mais. Eu tenho ligação com alguns fisiculturistas, alguns ídolos. O Dorian, por exemplo, é ídolo do Chris Galbraith, que é um cara novo e sabe muito e do próprio Waldemar, que é uma instituição da musculação brasileira.
O meu ídolo é o Lee Labrada, que é um homem de bem, muito família e muito profissional. Estava sempre bem, nunca se apresentava nem muito escuro, nem com pouca cor, a sunga era perfeita, a coreografia era perfeita. Nunca negou autógrafos, sempre tratou bem o público. Amigos meus que viajavam para os EUA sempre voltavam e me diziam o quanto o Lee labrada era simpático, humilde , então me espelho muito nele.
Outro atleta muito bom é o Milos Sarcev, gosto muito dele. É um cara muito, muito inteligente.
Todos eles são meus ídolos e tento usar um pouco do conhecimento de cada um em minha preparação. Este comecei a ouvir minha intuição, mudei alguns detalhes e deu certo.
MC:Realmente tenho lido muito sobre o Milos e posso dizer que é um dos melhores treinadores de atletas dos EUA hoje.
FS:Hoje em dia eu venho me especializando em biomecânica e em suplementos alimentares, que serão bem úteis daqui uns anos quando eu possivelmente me tornar um preparador de atletas. Particularmente gosto muito da idéia de um atleta como Milos , Charles Glass, que para mim é o maior preparador de atletas e maior conhecedor de biomecânica aplicada à musculação, preparar outros atletas mais novos.
MC:O Charles Glass é realmente incrível.
FS:Sim, ele é incrível, incrível mesmo. Ele consegue apontar as falhas dos atletas e o melhor- consegue corrigi-las!
MC:É verdade, ele mudou o físico de vários atletas que já eram de ponta – Flex Wheeler, Chris Cormier, Johnnie Jackson, Gunter. Tenho muitos vídeos do “Batalha pelo Olympia” onde podemos perceber alguns exercícios que ele (Glass) ajustava às necessidades do Flex por exemplo.
FS:Ele consegue corrigir um defeito do culturista que já não tem defeito. Finalizando, sempre me baseio em culturistas inteligentes e que sabem usar isso a favor deles.
Sou fã do Cormier, mas nem tanto porque ele tem pisado na bola muito. Sou fã do Cutler pois ele é muito inteligente e muito profissional.
Tem um cara aqui no Brasil, extremamente grande definido e na minha opinião é um dos físicos mais bonitos, que é o Paulo Lima. Sou fã do Marilândio Ponchet, que é meu amigo pessoal. Quando o vi pela primeira vez pensei: é assim que eu quero ficar.
Bem neste ano me preparei usando como base a preparação do Jay Cutler. A Lílian (Okubo , atleta Figure NABBA) me trouxe de presente uma revista da Irlanda que tem praticamente tudo sobre a preparação dele, inclusive com detalhes como bronzeamento etc.
MC: Provavelmente este artigo foi retirado do Livro PreContest Bible. Que é uma compilação da preparação de vários atletas. Tem umas 700 páginas e tem quase tudo sobre a preparação, menos a parte farmacológica. Eu tenho esse livro e posso dizer que é muito bom.
Uma semana depois do paulista foi realizado o Brasileiro. No paulista você foi o campeão desbancando o Jéferson Bad Boy. No brasileirão você foi segundo e ele venceu. Como foi essa semana entre as duas competições?
FS:Essa preparação para o brasileiro foi uma das mais difíceis. Tive muitos problemas durante essa semana. Muita dificuldade, stress, foi uma semana de provação. Chegava a chorar de tanta dor durante os treinos de segunda, terça e quarta. Na última semana antes do campeonato eu faço a mesma coisa que o Jay Cutler. Treino o corpo todo (inclusive pernas) com séries de 25 repetições s na segunda, terça e quarta, começando o carb-up na quinta.
MC:Geralmente os atletas não costumam treinar perna na última semana da preparação. Nesses treinos do corpo todo você fazia perna também?
FS:Sim, e essa foi a razão pela qual minhas pernas ganharam uma maior profundidade em seus cortes. Comecei a usar este principio este ano em cinco competições. E foram quatro títulos e um vice.
Mas continuando, essa semana foi muito difícil, foi a primeira vez em nove anos de casamento em que eu fiquei mais de dois dias sem ver minha mulher e minha filha. Foram nove dias sem vê-las. Não conseguia dormir, estava muito tenso. Nunca pensei que pudesse ficar assim.
Eu sabia que o Bad Boy tinha muito volume ainda e podia se dar ao luxo de tentar entrar mais seco no brasileiro em relação ao paulista. Eu tentei me segurar o máximo possível, não estourei a dieta nem depois do paulista. Mas foi uma semana tumultuada, na segunda nós( Fernando Sardinha, Jéferson Bad Boy e Fábio Caverna) viajamos para a Bahia para fazer umas fotos para um site. Foi uma viagem longa e bem cansativa.
Como fui Campeão Paulista, eu ganhei uma viagem para Curitiba, onde seria disputado o Campeonato Brasileiro. Saímos na sexta a noite de São Paulo. Na sábado de madrugada o ônibus quebrou, atrasou três horas a viagem. Tive que comer malto sem água, somente o pó na colher. Chegamos lá as 7:30 da manhã e a prévia começou as 9:00 horas.
Entrei muito bem, melhor que no paulista. Estava com 85 kg. No paulista pesei 86kg. Inclusive aconteceu uma coisa muito importante: O Waldemar Guimarães que é um sensacional, o top dos tops no Brasil, um cara que não é de firula. Ele fala o que ele acha. Depois da previa ele passou por mim, veio no meu ouvido e disse: “Se você vencer sua classe, o que será justo, você será o Overall.” Para mim você é o melhor atleta da competição. No final consegui ver a súmula, perdi por um ponto! E depois o Jéferson foi Campeão Overall, exatamente como o Waldemar havia falado.
MC:Quais suas expectativas para o Mr Santos? Estamos a exatamente uma semana do campeonato.
FS:Ano passado fui terceiro colocado. Tentei entrar um pouco mais volumoso, mas errei em alguma coisa e fiquei com um pouco de retenção hídrica na hora.
Ontem eu me pesei, 94 kgs. Ainda falta uma semana, quando eu tiro a água sempre perco em média 3 kg, quando tiro o sal perco mais uns dois. Talvez eu entre um pouco mais pesado essa vez.
MC:Há quanto tempo começou a preparação para o Mr Santos?
FS:Hum, deixa eu pegar minha agenda, meu diário de treino, vamos ver.Comecei dia 23 de Outubro. Como eu sempre me mantenho bem, não precisei de tanto tempo. Para o brasileiro e paulista eu fiquei mais tempo em dieta. Para o paulista comecei a preparação dia 29 de maio, com 91,3 kg e terminei 86kgs. Foram 14 semanas de preparação.
MC: Você é conhecido com um dos melhores posadores do Brasil, senão o melhor. A coreografia não conta pontos no campeonato. O que te motiva a fazer coreografias e apresentações tão bem elaboradas?
FS:Sempre tive facilidade para encarar o palco, como era músico, sempre me expus par ao publico. Na competição é onde eu encontro as duas coisas que mais amo: musculação e música.
E como sou musico, tenho muito bom gosta para música. E também existe a música certa para cada tipo de pessoa, para cada tipo de físico. Tem atletas que posam com musica lenta e fica muito bom. Existem outros que colocam um hip-hop e não ficam tão bem… Não pela música, mas porque o som não combina com a pessoa. Por exemplo Shawn Ray, físico mais estético, poses mais clássicas, ritmadas, posava com música Mariah Carey.
Por outro lado, você pega o Dorian Yates, se apresentando com uma música mais clássica, sem nada bailado, extremamente reto e também fica ótimo.
MC:E o Melvin anthony?
FS:Também é ótimo, ele mistura o break, faz o Moon walker do Michael Jackson, usa movimentos meio parecidos com robô.
Este ano peguei uma música do Seal, “Get it Togheter”, onde eu usei em sacramento e também lá em São Carlos, onde me apresentei como convidado na Clínica de Musculação do Waldemar Guimarães. Minha esposa que escolheu essa musica, nela eu consigo fazer minha coreografia um pouco mais rápida, mais ritmada e até tento fazer um pouco de robozinho. Hehehehehe.
Voltando à pergunta inicial, minha grande motivação são aqueles 90 segundos, onde eu me encontro, onde eu me transformo em mim mesmo, é a hora onde lembro de tudo que eu queria comer e não comi, é a hora que faz tudo valer a pena, onde eu lembro que eu não deixei de fazer aquelas últimas repetições daquelas séries difíceis. É naquela hora q eu tenho certeza que se eu morresse no minuto seguinte, eu morreria realizado.
MC: Existem muitos desentendimentos, brigas, e rivalidade entre os atletas da IFBB. Sabemos disso pois existe uma divulgação maior. Aqui no Brasil, também existe isso?
FS:Pra ser sincero, eu não tenho o dom para ver maldade nas pessoas na primeira vista. Meu pai tem, minha mulher tem. Então fico surpreso com algumas coisas que ouço. As vezes fico sabendo que fulano discutiu com cicrano e eu fico surpreso. Puxa! O cara é uma moça.
Mas eu acredito que sejamos mais unidos aqui no Brasil. Por exemplo no brasileiro deste ano, eu estava no palco posando e o Paulo Lima estava ali, atrás dos juízes, me dando alguns conselhos. Nós competimos na mesma classe, e mesmo assim ele estava me ajudando.
Sempre fui alvo de criticas, umas pessoas falam mal de mim ás vezes. Não vou falar o nome dessas pessoas, mas isso ocorreu mesmo. Essas pessoas me menosprezavam e diziam que eu nunca chegaria lá. E na verdade eu não fico bravo. Fico chateado, magoado. Mas hoje isso está praticamente resolvido.
Não podemos falar mal de ninguém. Pouco antes do Coleman vencer o primeiro Olympia, ele era bombardeado pelo Nasser (El Sombaty). Nasser fazia fortes criticas em relação ao físico do Coleman. E depois ele foi forçado a fechar a boca por oito anos.
Engraçado que o Coleman ficou em 15º em seu primeiro Olympia. Não foi como o Dorian, que chegou quebrando tudo.
MC: Sim, o Dorian chegou em 91 e venceu o Night of Champions, que ainda era promovido pela IFBB. Ficou em segundo no Olympia, atrás do oito vezes Mr. Olympia Lee Hanney. Na verdade Lee confessou que só se aposentou no ano de 91 pois percebera que Dorian seria imbatível no ano seguinte.
FS:Ele é um cara excelente.
MC:Você é um atleta extremamente simpático e pronto para servir os fãs. Eu me lembro e sou muito grato daquela vez em São Carlos, durante uma Clinica do Waldemar Guimarães. Você chegou lá e se dispôs a fazer uma apresentação para o público na parte final do evento. Aquilo foi um dos pontos altos de toda a festa.
Existem atletas que se esforçam para ser antipáticos, ou pelo no mínimo não se esforçam muito para dar uma atenção aos fãs. Há pouco tempo atrás um atleta de ponta nacional, competidor top do Mr. Universe foi a minha cidade natal, Monte Azul Paulista e foi extremamente antipático e rude conosco durante o jantar de agradecimento pela presença dele.
FS:Verdade? Não acredito? E nem posso imaginar quem seja.
MC:Não vem ao caso quem seja.Mas qual sua opinião sobre essa atitude desses atletas?
FS:Nós já somos sozinhos no esporte. Você pega o esporte do momento que é o vôlei, a paixão nacional que é o futebol e o esporte do dinheiro que é o tênis. Se somarmos todos elas, dá um qüinquagésimo da ciência e perspicácia que temos que ter no culturismo. E nós sempre estamos descobrindo coisas novas em nosso esporte.
Nós sabemos dos benefícios da musculação para os diversos públicos há 25 anos, mas só agora isso tem sido mais difundido. Portanto estamos sozinhos em relação à sociedade, não podemos ficar desunidos como grupo.
Eu faço o que eu posso para atender todo mundo, mesmo nos campeonatos. Mas existem situações onde não podemos dar atenção para as pessoas. Certa vez eu estava pronto para subir ao palco em um campeonato para competir o Overall, que é a hora do stress máximo de uma competição e um cara começou a perguntar coisas sobre minha preparação. Meu amigo, essa não é a hora de conversar.
Se estamos sentados sem uma mesa, comendo todos juntos e o cara pergunta uma coisa simples, claro que eu devo responder, essa troca de informações enobrece o esporte. Mas existem perguntas e perguntas.
Também sou contra o cara que tem um conhecimento vasto e se nega a responder perguntas simples.
Acho que dentro deste contexto o Waldemar (Guimarães) é um caso a parte. Ele sempre está muito exposto, tem o site, os livros, as palestras. Além de tudo ele é um cara muito polemico em tudo praticamente tudo o que fala. Então, como ele tem uma legião de fãs inimaginável, ele é bombardeado por um volume enorme de perguntas, é aí que ele deve estressar.
Finalizando, atletas como esses desestimulam os jovens e marginaliza os outros atletas, criando uma péssima imagem para o esporte.
MC:Em seu livro, “A Warrior´s History”, Dorian Yates conta como se concentrava para os treinos. Ele ia para uma sala em sua casa umas duas horas antes de ir para a academia. Lá ele lia o seu diário de treino, relembrava a última sessão que havia feito para o músculo a ser treinado naquele dia. Ele costumava vestir roupas especificas para cada treino. Para pernas era sempre a mesma calça e um boné . Para peito tinha uma outra camiseta. Você tem alguma coisa curiosa nesse sentido?
FS:Existe uma série no Universal Channel, chamada Monk. Uma das melhores séries que vi na minha vida. (Para aqueles que não conhecem, Monk é um detetive com TOC , transtorno obsessivo compulsivo. Ele tem muitas manias. Em um episódio ele fez um PM sair da cena do crime pois ele estava com uma meia de cada cor e isso estava atrapalhando a concentração do astuto detetive.) E todo mundo tem um pouco disso. Eu particularmente sou muito organizado, extremamente metódico. Gosto de ter o armário arrumado, a camisa certa na hora certa. Mas isso que o Dorian faz é o meu sonho. Infelizmente eu não consigo. Primeiro que eu sou um cara muito sozinho, sou meu nutricionista, meu técnico, faço meu treino. Eu tenho responsabilidade sobre tudo na minha preparação. Não tenho parceiro de treino. Já tive alguns mas como sou muito metódico, a filosofia de treino deles não era a mesma que eu seguia. Então isso me atrapalhava muito.
MC: Mudando um pouco o rumo da conversa, aconteceu um fato marcante em nosso esporte este ano. O Negão perdeu. Na verdade devemos dizer que o Jay Cutler venceu, pois teve uma dedicação enorme através dos últimos anos. Ele mereceu mesmo vencer? O Coleman ainda tem condições de voltar ano que vem e ganhar de novo?
FS:Eu particularmente sou fã do Jay Cutler e do Dexter Jackson. Gosto deles demais. De 2005 para 2006 Dexter galgou alguns degraus. Foi um dos poucos caras que fez um off de um ano e conseguiu melhorar o físico. ( Dexter jackson Ficou um ano sem competir, de Março de 2005, no Arnold Classic, até Março de 2006 no Arnold de 2006. Ele não competiu no Olympia de 2005, mas voltou esta competição nesse ano.)
Existe uma promessa, que é o Victor Martinez. Ele teve uma evolução enorme nos últimos anos, talvez uma das maiores já vista. E ainda tem potencial para crescer mais. Porém eu acredito que ele não poderá vencer nem o Coleman nem o Cutler nos próximos três anos. Talvez ele nem consiga bater o Dexter, que na minha opinião deveria ter ficado em terceiro este ano à frente do Victor. ( Dexter ficou em quarto lugar, atrás de Victor Martinez , em terceiro.) O Dexter tem um físico mais harmonioso, tem linhas melhores e mais estéticas. E também possui a melhor simetria de todos os tempos na minha opinião.
MC: Até mais que o Flex Wheeler?
FS: Sim, você pode notar que até as suas veias são simétricas.
Voltando ao Jay Cutler, acho que ele é o atleta mais merecedor de vencer o Olympia. Até mesmo mais que o Coleman. Claro que essa é uma opinião pessoal minha. Sou fã do Coleman que acho que é a maior aberração genética de todos os tempos tanto em força, densidade e volume. Eu me lembro de uma foto dele fazendo um agachamento, na posição mais profunda, com uma barra com 385 kgs. Sem ninguém atrás para ajudar! Leg-press com mais de 1100kgs em uma máquina da Cybex. Já treinei em uma máquina da cybex e fiz morrendo com 350kgs, 400 kgs… Mas na minha opinião o Jay Cutler foi o verdadeiro vencedor do Olympia pois ele melhorou coisas que ninguém achava que ele pudesse melhorar, a densidade nas costas e mais alguns detalhes. Ele foi primeiro, segundo e terceiro. Ele é o mais profissional da atualidade. Ele é profissional em suas declarações, em seus gestos, é um cara família. Além de ter toda a parafernália necessária: se ele precisar de uma cama para bronzeamento artificial, ele tem. Se ele precisar de uma cachoeira para relaxar, ele tem uma no fundo de casa. Você nunca o viu gordão, despenteado etc.
MC: Há alguns anos, eu estava em uma palestra do Gerson Guimarães. Lá perguntaram sobre a ida do Edson Prado para os EUA. O Gerson, disse que nunca faria isso porque lá ele seria apenas mais um no meio de tantos atletas bons. Aqui no Brasil ele era o “Gerson Guimarães”, era tratado como estrela em todo lugar que ia, podia cobrar um bom dinheiro pelas fotos e palestras. Você iria para lá se tivesse a chance?
FS:Eu sou pacato, caseiro. Não gosto de ficar pulando de galho em galho, de vida cigana. Eu não iria.
MC: E se você tivesse certeza que seria um atleta top ten?
FS: Aí eu iria! Mas eu sou caseiro. Aqui eu tenho uma boa vida. Não sou rico mas tenho uma boa vida. Posso dar uma força pros meus pais, ter uma qualidade de vida boa. Por exemplo, o José Carlos Santos fez muito bem em não se profissionalizar. Aqui ele ministra seminários, tem um ótimo patrocínio, e é muito reconhecido. Ele é campeão mundial amador, mas tem uma ótima vida.
Já o Edson prado tinha até uma academia, um ótimo patrocínio, com certeza ele deve estar tendo um ótimo retorno financeiro por lá. Caso contrário não valeria a pena.
Outro exemplo é o egípcio El Shahat Mabrouk, campeão mundial peso médio na IFBB por diversas vezes. Ele escolheu não se profissionalizar e tem uma ótima vida.
Mesmo o Miguel de Oliveira, que na minha opinião é o melhor físico brasileiro, com um físico mais completo, não tem conseguido bons resultados por lá.
MC: Fechando a entrevista, gostaria que você deixasse um recado aos leitores do Treino Pesado.
FS:Passei por muita coisa desde o meu começo até aqui. Mas faria tudo de novo. Pois é isso que me realiza. Eu sou muito mais útil para a sociedade sendo esse debilóide que toma suplementos naturais, que prefere whey protein com maltodextrina a uma garrafa de cerveja. O nosso esporte tem seus prós e contras, tenho meu renome no estado de São Paulo, nesse parâmetro, procuro fazer o bem para as pessoas, tentado ajudar os que vem chegando. Sendo um culturista, eu sou muito mais importante para a sociedade do que um jogador de futebol, com todo o respeito aos jogadores, mas no estádio a torcida joga coisas um no outro, briga com a policia e tudo mais. Em um campeonato de musculação eu vou me aquecer junto com meu oponente atrás do palco, e as famílias vão assistir a tudo juntas e sem briga nenhuma.
MC:Muito obrigado pela entrevista e por abrir tão gentilmente as portas de sua casa.
FS:A satisfação foi minha. Sempre que você precisar estarei a sua disposição. Obrigado.